Ruth Silviano Brandão

America’s next top model é uma espécie de reality show, cujo principal alvo devem ser jovens às voltas com sua própria feminilidade, pergunta nunca satisfatoriamente respondida. Sob a regência medusina de Tyra Banks, o programa apresenta a competição de moças de vários países e tipos de beleza, que buscam alcançar o título de top model, seu maior sonho. Um sonho universal, parece, já que moças quase adolescentes o perseguem, conforme as várias culturas de onde vêm. Não sei se o programa ainda mantém uma grande audiência nos EUA ou em outros países. Pareceu-me, de início, devido à variedade de tipos de beleza, que a reflexão sobre a diferença e as minorias tinha chegado enfim a um programa que dava visibilidade a mulheres de várias nacionalidades, logo, representantes de múltiplos tipos de beleza: americanas, europeias, africanas, sul-americanas, asiáticas, brancas, negras, amarelas, marrons. A todas era dada a oportunidade de vencer na América e viver a ilusão da fama.

A experiência vivida pelas candidatas parece-me um ritual de passagem, em que elas dão provas de eficiência, coragem e capacidade performática, um aprendizado em que se prestam a duras críticas sobre maquilagem, penteados, roupas, maneiras de caminhar. Este último exercício é dirigido por um homem negro, de salto alto, de trejeitos necessários às poses e ao palco. Caricatura, semblant de mulher A senhorita Jay faz humor, mas impõe respeito. Sob seu comando se realiza um treinamento quase militar, em que as moças aprendem um andar semelhante a uma marcha. Como homens. Outra prova: numa espécie de galpão, com o pé direito muito alto, as candidatas literalmente se abismam, numa performance jamais considerada perfeita, já que devem obedecer à ordem de ser natural e ser teatral, ao mesmo tempo: sejam naturais, descontraiam os ombros, não apertem os lábios, imitem uma garça voando. Essa seria uma das mimeses (im)possíveis para a futura model.

Os corpos desfilam. Magras, belas, feias, gordas, rosto simétrico ou não, elas buscam o feminino da model,da top, tendo que atravessar as barreiras falicizantes, para alcançar o desejado sucesso. A magra demais, anoréxica, chora porque foi eliminada, a bem da competição, que nega a preferência da alta costura ou do prêt-à-porter pelas magérrimas, excelentes cabides de roupas. Ser ou não ser magra: eis a questão! Afinal a anorexia é uma dismorfia, de cuja exigência o mundo da moda é criticado. Negar a exigência torna o programa aceitável, de acordo com as cobranças relativas à saúde feminina feitas pela mídia.

Há que ser sexy, única, nunca houve uma mulher como Gilda. Hoje ninguém se lembra de Gilda, mas todas querem ser únicas, atraentes. Para quem? Para o olho narcísico dos donos da moda, para os olhos e as bocas devoradores do capital. Os corpos sofrem transformações, através de roupas diferentes, de cabelos cortados — a loura de cabelão chora — ou o penteado arranjado com perucas ou apliques de todas as formas. As louras se transformam em japonesas, as sul-americanas em europeias, as europeias em negras africanas: nada é impossível para construir o feminino. Mas qual feminino? Aliás, o que é o feminino? Nesse palco, é impossível separar realidade e ficção: teatro ou circo? Máscaras e mascaradas. La vida es sueño,diria Calderón de La Barca em seu teatro barroco. Aqui o barroco reina com suas dobras, seus claros-escuros, seus panejamentos, suas ambiguidades. São várias mulheres de vários países, que estão à caça do feminino, construído por seus mestres vestidos de mulher ou fazendo semblant de homens, sobretudo profissionais da beleza: o fotógrafo, o maquilador, o estilista, que exigem uma disciplina absoluta, encarnando um supereu feroz. Inquestionável, em seu teatro bufo, modelos, estilistas e esteticistas colocam-se a serviço da poderosa indústria da moda. Nada de desejo de identidade, qualquer que ele seja. Marionetes, bonecas Olímpia, parecem criaturas do astuto Coppola personagem do conto O homem da areia, de Hoffmann, em que o também personagem Natanael enlouquece de amor pela marionete moldável a seus desejos. A questão identitária não existe para cada uma das participantes de America’s next top model, pois o programa aceita e aplaude todas as identidades, com a condição de passarem pelo crivo uniformizador dos profissionais da estética, para se encaixarem no papel que devem cumprir. Os paradigmas engolem as diferenças que se apagam ou aparecem como estereótipos, que também entram no páreo, com suas máscaras postas ou retiradas, conforme sua função no show: entre as máscaras, em sua troca por outras, rapidamente o feminino sem rosto se entrevê. Inominável, aberto ao gozo infinito.

Entretanto, há os intervalos, em que se revelam os bastidores, num verdadeiro (?) reality show: as fragilidades: a insegurança, os ciúmes, a inveja, o rancor. As lágrimas aparecem. A fragilidade é tão feminina, e a construção do cenário deve torná-la visível! Nos intervalos, as mulherzinhas mostram que são humanas. Humanas e femininas, domésticas, o oposto da top model. Têm saudades de casa, da família, do filhinho ou filhinha. Falam ao telefone, choram. Ou são diabólicas, com o olho feroz em cima da outra mulher. Outras mulheres, sempre aquelas que querem se apossar do que lhes é próprio, por direito, por desejo. Os cenários mudam rapidamente. Parece que não há ensaios, por trás dos bastidores. Tudo natural, espontâneo. Para ser gravado e aparecer nas telas de todas as TVs do mundo

America’s next top model é uma série, e ao fim de cada dia são selecionadas as candidatas promissoras. O ritual se faz sob a lei de Tyra Banks, que usa o suspense, os olhos que sorriem, sem que seja necessário usar os lábios (diz ela), a pausa insuportável, para prolongar a deliciosa dor do gozo. Do choro gozoso. Todas gozam: rejeitadas e vencedoras.

Derivas analíticas agradece a Ruth Silviano Brandão pela cessão de seu artigo, que foi apresentado por ocasião do XIX Encontro Brasileiro de Campo Freudiano. Salvador, 2012.


NOTA


Ruth Silviano Brandão é escritora, poeta e tradutora. Doutora em literatura comparada pela UFMG, com pós-doutorado na Universidade de Paris 8. Algumas de suas publicações: Ventos e sóis alumbram o dia. Rio de Janeiro: 7Letras, 2013. Machado de Assis leitor – uma viagem à roda de livros. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2011. Minha ficção daria uma vida. São Paulo: Com-Arte, 2010. Mulher ao pé da letra, a personagem feminina na literatura. 2. ed. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2006. Literatura e psicanálise. Porto Alegre: Ed. UFRGS, 1996.

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