Jardins de Cerrado: um olhar sobre a nossa savana

Entrevista com Mariana Siqueira

 

 

 

A planta goza, no mais alto grau,
da propriedade de ser instável.
Ela é viva enquanto se altera.
Ela sofre uma mutação constante,
um desequilíbrio permanente,
cuja finalidade é a própria busca de equilíbrio.
Burle Marx, R
.

 

A arquiteta paisagista Mariana Siqueira conversou com Camila Nuic sobre o projeto Jardins de Cerrado, que criou em parceria com o coletivo Restaura Cerrado e com o Jardim Botânico de Brasília. Mariana trabalhou no escritório holandês West 8, onde foi assistant designer, ajudando a desenhar o parque Madrid Río, e na equipe de Rosa Grena Kliass e Barbieri+Gorski, em São Paulo, na coordenação do projeto Parque Linear Macambira Anicuns. Atualmente reside e atua em Brasília, onde projeta jardins em seu escritório de arquitetura paisagística. Sob o céu do Planalto Central, Mariana busca miudezas e se lança a um desafio: plantar Cerrado e despertar o olhar sobre esse bioma, apostando no potencial ornamental de sua flora rasteira. Mariana captura o detalhe, revela o que estava ali em espera, como se fizesse sair do sono os capins e as flores baixinhas que compõem os campos do Cerrado, esse estranho familiar.

Leia a seguir a bela e generosa entrevista concedida para Derivas Analíticas por Mariana Siqueira.

 

Derivas Analíticas: Você é formada em arquitetura, trabalha com paisagismo e, no entanto, seu trabalho atual aponta na direção da ecologia. Antes de falar sobre sua proposta inovadora, o projeto Jardins de Cerrado, conte-nos um pouquinho sobre sua trajetória profissional.

MS: Acho que para falar sobre meu percurso profissional, preciso antes contar a história de uma casa: a casa da tia Blandina. Nasci e cresci em Belo Horizonte, sempre morando em apartamento, mas os fins de semana – quando não estávamos no sítio Sucupira, em Itapecerica, no centro-oeste mineiro – nós passávamos na casa da tia Blandina, a mais velha entre os dez irmãos da minha mãe. Minha tia era médica, neuropediatra, e tinha devoção pela natureza e suas criaturas. Sua casa era um lugar especial, quase mágico – uma construção ampla de dois andares, com a base de pedra e as paredes brancas de cal, incrustada em uma florestinha que a própria tia Blandina tinha plantado. Os ambientes pareciam vivos e atemporais: os jardins, a varanda e a sala de estar convidavam a animados encontros, onde nossa numerosa família comia, bebia e conversava; outros ambientes levavam à introspecção, como era o caso da biblioteca e de um ateliê no andar de cima, todo vedado com vidro, que nos transportava para o silêncio da copa das árvores. Nas longas horas que eu passava naquela casa, vi nascer e crescer em mim uma ardente curiosidade pelo mundo natural. A tia Blandina nos mostrava folhas, sementes, beija-flores e ninhos de passarinhos que encontrava no jardim. E certa vez me deu um microscópio velho que tirou não sei de onde. Eu tinha certeza de que queria ser cientista quando crescesse.

Derivas Analíticas: E o que houve com essa menina que queria ser cientista?

MS: Ela virou adolescente [risos]. E a minha adolescência, como tantas outras, foi marcada por profundas crises existenciais, que devem ter me rendido um olhar mais filosófico para a vida ao preço de um flerte com a depressão. Até os 15 anos eu sabia que iria prestar biologia ou medicina no vestibular, mas algo aconteceu dali até os dezessete anos que me fez esquecer essa motivação, sem que outra emergisse em seu lugar. Eu tinha interesse em diversas áreas, mas em nenhuma em particular. E, assim, me vi diante do guichê de inscrição para o vestibular com uma ficha onde o campo ‘opção de curso’ estava em branco. Marquei arquitetura, sem saber exatamente o porquê.

Derivas Analíticas: Mas você tem alguma ideia de onde pode ter vindo essa escolha pela arquitetura?

MS: Hoje, olhando em retrospecto, acho interessante observar que, bem nessa época, no ateliê do andar de cima da casa da Tia Blandina pipocavam réguas, esquadros, escalímetros, compassos e pranchetas: três dos seus quatro filhos prestaram arquitetura, e um deles levou o curso adiante com louvor... Durante o vestibular, minha família se mudou para São Paulo, e eu entrei na USP, naquele ambiente fascinante que é a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo. Apesar de edifícios nunca terem me emocionado tanto quanto a alguns de meus colegas, acho que aquele curso foi ideal para mim por seu caráter generalista: uma verdadeira formação humanista focada na questão espacial, do espaço 2D ao território. Foram anos memoráveis. Formada, trabalhei durante alguns meses em São Paulo e depois embarquei na aventura de trabalhar como arquiteta voluntária na Índia rural. Meu namorado à época me visitou ali, e juntos fomos conhecer a mítica cidade projetada por Le Corbusier, Chandigarh. Em meio a alguns dos palácios mais emblemáticos da arquitetura moderna, ele se emocionava enquanto eu simplesmente não conseguia acessar o mesmo grau de empolgação. Já em um dos parques que visitamos, me entusiasmei com uma simples escadaria que serpenteava por entre as plantas. E foi ali que ele teve uma epifania, tão concreta que pareceu beirar uma experiência mística: “Você vai ser arquiteta paisagista”. “Arquiteta paisagista, eu!?” A disciplina, pouco valorizada no curso de arquitetura e na sociedade brasileira em geral, apesar do fabuloso legado de um brasileiro, Roberto Burle Marx, nunca tinha se apresentado a mim como um potencial caminho profissional. Mas intuí que ele pudesse estar nomeando algo que talvez já se expressasse em mim, ainda que de uma forma bastante difusa.

Derivas Analíticas: Aqueles edifícios não te comoveram tanto quanto uma simples escadaria no meio das plantas, dentro de um parque. Outra arquitetura se apresentava a você... Fez-me lembrar da casa de sua tia, uma estrutura construída para abrigar uma florestinha e um silêncio de árvores...

MS: Sim! Decidi, então, que minha próxima experiência profissional deveria ser nessa área e tive a sorte de trabalhar, durante três anos, para um excelente escritório holandês de desenho urbano e arquitetura paisagística, o West 8. Ali pude sentir a satisfação que é ajudar a projetar espaços públicos de qualidade, que trazem o verde para a vida das pessoas nas cidades. De volta ao Brasil, cheguei a trabalhar um tempo em São Paulo, em um projeto de parque assinado pela Rosa Kliass. Foi nessa época que a tia Blandina morreu. Minha mãe e eu estávamos na casa de um de seus filhos na madrugada em que chegou a notícia. Inconsolável, esse filho disse que não poderia enterrar a sua mãe... e que era preciso plantá-la! E foi isso que fizemos, poucos dias depois: fomos todos para Itapecerica e plantamos uma muda de sua árvore favorita, o ipê-amarelo, no quintal da casa onde ela nasceu. A muda foi adubada com suas cinzas, em uma cerimônia leve e musical. Algum tempo depois, voltei para lá e passei dois meses construindo, com a ajuda de um amigo, um jardim ao redor da árvore... E esse foi o meu primeiro jardim. Deixamos livre uma área bem grande, junto ao ipezinho, feita apenas em terra batida, para que, ali, a família pudesse voltar a se encontrar para comer, beber e celebrar, tal como fazíamos nos tempos da casa de pedra e cal.

Derivas Analíticas: Seu primeiro jardim surge, então, nesse momento, nesse gesto de plantá-la, de manter viva a presença de sua tia.

MS: Aquele quintal nunca mais foi o mesmo, e outros caminhos se abriram para mim. Acabei entendendo que São Paulo não era mais o lugar para mim, e resolvi que queria voltar a viver perto da minha família: o jeito foi vir para Brasília. Confesso que vim um pouco descrente em relação à cidade, mas que, para minha surpresa, acabei adorando a vida no Planalto Central, que hoje não troco por nada. Abri meu escritório de arquitetura paisagística – cuja sede é uma salinha com uma grande janela de vidro que dá para a copa das árvores, tal como no ateliê da tia Blandina – e comecei a enfrentar o desafio de fazer projetos autorais. Mas o mais importante que me aconteceu aqui em Brasília foi meu reencontro com o Cerrado, flora e fauna das paisagens da minha infância e da vida de muitos dos meus, dos nossos, antepassados. Apaixonei-me pelo bioma e entendi que, para trabalhar com ele e para ele, vou ter que, por fim, mergulhar no mundo da ecologia, das ciências naturais.

Por isso, acho que minha trajetória profissional representa o caminho de volta a algo precioso da minha infância – o caminho da arquitetura à ecologia, das pranchetas da casa da tia Blandina até sua floresta plantada e seu microscópio. Talvez o paisagismo, para mim, seja um nome, ainda em lapidação, sujeito a transformações, para um espaço de devoção à natureza sob a ótica da beleza, ou para um espaço de ponte entre cultura e natureza. A esta altura já me tornei uma arquiteta munida de botas, chapéu e lupa para expedições; quem sabe, ainda possa me tornar uma ecóloga munida de escalímetros, compassos e lápis de cor.

Derivas Analíticas: Fale-nos, então, por favor, sobre o projeto Jardins de Cerrado.

MS: Uma das primeiras encomendas que recebi, ao abrir meu escritório de arquitetura paisagística em Brasília, foi para fazer os jardins de uma casa muito bonita, situada em uma chácara nos arredores da cidade. E a primeira frase que a cliente me disse, quando nos conhecemos, foi: “Eu quero um jardim bem de Cerrado!”. Normalmente, a imagem que vem à mente quando falamos de Cerrado são as árvores de troncos retorcidos, mas essas árvores só ganham destaque na paisagem, por estarem espalhadas sobre um tapete de plantas baixinhas – capins, herbáceas e arbustos com flores miúdas – e entendi que essas plantas baixinhas, singelas, não poderiam faltar no nosso jardim. Nova no pedaço, comecei a visitar viveiros em busca dessas plantas para, a partir do que estivesse disponível comercialmente, fazer o projeto para a minha cliente.

O estrato rasteiro representa 80% da riqueza da flora do Cerrado
(Chapada dos Veadeiros - GO, estação chuvosa).

Para minha grande surpresa, não encontrei nenhuma planta do Cerrado – que não fosse árvore – nos viveiros locais; salvo, é claro, uma ou outra exceção que só faziam confirmar a regra. Os pouquíssimos capins eram todos de fora do Brasil, e das plantas com flores, nenhuma era do Cerrado. Apurei meu olhar para as flores utilizadas na ornamentação de canteiros e rotatórias na cidade e constatei que, de fato, elas não são da região, e normalmente são anuais (que têm que ser replantadas todo ano), demandam muita rega e manutenção... algo com alto custo financeiro e ecológico. E justo em Brasília, uma cidade tão interessante do ponto de vista arquitetônico e urbanístico, construída no coração do Cerrado! Comecei a achar que aquelas florezinhas estrangeiras não faziam jus à sua originalidade. Por que, afinal, não se utilizam as plantas do Cerrado? Comecei a conversar sobre isso com todo mundo que me aparecia na frente, e a resposta era sempre a mesma: que é difícil, ou mesmo impossível, plantar Cerrado. Todos bendiziam minha vontade de fazer jardins nativos, mas completavam que, infelizmente, não podiam ajudar. Ao mesmo tempo, eu estudava os jardins naturalistas contemporâneos – feitos em países de clima temperado, onde predominam paisagens com campos abertos, como no Cerrado – e aprendia também sobre a importância de utilizar (e, para isso, domesticar) a flora nativa, um movimento que ganha força em todo o mundo. Fazia ainda expedições para campos naturais, onde minha paixão e minha perplexidade só aumentavam: como podem essas plantas tão lindas ser tão ignoradas!?

Plantas da flora rasteira do Cerrado. Fotos: Amalia Robredo.

Após muito procurar, minha busca por parceiros acabou rendendo frutos. Ouvi falar do coletivo Restaura Cerrado, que trabalha com restauração ecológica a partir de um grande diferencial: a compreensão de que o Cerrado não são apenas árvores e de que é preciso plantar tudo – capins, herbáceas, arbustos e árvores – na hora de restaurar. O coletivo é composto pelo Centro Nacional de Pesquisa e Conservação da Biodiversidade do Cerrado e da Caatinga, do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (CECAT-ICMBio), pelo Departamento de Ecologia da Universidade de Brasília (UnB), pela Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia e pela Embrapa Cerrados. Assim que entrei em contato com esse coletivo, um dos seus integrantes, o ecólogo Alexandre Sampaio, veio ao meu escritório para nos conhecermos e para, em suas palavras, me convencer de que o que eu queria fazer era possível: tudo o que eu queria ouvir! Começamos a juntar ideias, e logo compareci, na Chapada dos Veadeiros, a um dos plantios de restauração – que não é feito por mudas, mas sim por toneladas de sementes jogadas sobre a terra nua – e me emocionei. Não só é possível plantar Cerrado, como é bonito e necessário.

Toneladas de sementes aguardam o momento de ser lançadas sobre o solo, em um plantio de restauração ecológica de Cerrado
(Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros - GO)

De volta à capital, descobrimos que o Jardim Botânico de Brasília já estava interessado em utilizar flora nativa – muito além de apenas árvores – no projeto de plantio do Parque da Orla do Paranoá, que ainda está em fase de discussões pelo Governo do Distrito Federal. E foi assim que firmamos, o Jardim Botânico de Brasília, o CECAT-ICMBio e eu, uma parceria de pesquisa sobre paisagismo com a flora rasteira do Cerrado. Ali montamos, para começar, um experimento onde semeamos, em 180 pequenas parcelas, 15 diferentes espécies de plantas nativas: 12 dessas espécies têm se desenvolvido bem, sem ou com pouquíssima rega, suportando inclusive a prolongada seca da cidade. Com isso, esperamos, aos poucos, desmistificar a ideia de que não é possível plantar a flora rasteira do Cerrado.

Experimento com plantio de nativas no Jardim Botânico de Brasília: é possível plantar “as baixinhas” do Cerrado!

Temos feito também expedições para seleção de plantas com potencial ornamental – até agora, fizemos a identificação botânica de mais de 250 espécies –, palestras e divulgação de conteúdos nas redes sociais. Já começamos a experimentar a reprodução de novas plantas, sobre as quais não há na literatura registros de tentativas anteriores: o Jardim Botânico de Brasília está empenhado em utilizar seu viveiro, cada vez mais, para pesquisas dessa ordem. Com o tempo poderemos, de fato, introduzir essas plantas em jardins.

Expedições para seleção de plantas com potencial ornamental e herbarização para identificação botânica.

Derivas Analíticas: Foi a partir da demanda de uma cliente que você procurou por viveiros onde pudesse encontrar plantas do Cerrado, e eis que você descobre que não havia ou que havia pouquíssimas para ser utilizadas em jardins. No entanto, você nos fala de uma motivação que parece ir além da vontade de atender sua cliente. Os ecologistas alertam que o Cerrado está gravemente ameaçado. De que forma esse projeto contribui para a sua conservação? 

MS: O Cerrado é um gigante incompreendido, que está sendo destruído antes que possamos conhecê-lo. O Cerrado é a paisagem do Brasil Central (originalmente, ele ocupava quase ¼ do território nacional) e serve de elo entre Amazônia, Caatinga, Mata Atlântica e Pantanal. Sua importância ecológica é incalculável: só para ter uma ideia, ele é considerado a “caixa d’água do Brasil”, já que abriga as nascentes das três principais bacias hidrográficas da América do Sul. Recentemente, a bióloga e especialista em Cerrado, Mercedes Bustamante, foi categórica ao afirmar que desmatá-lo “é como fechar a torneira da água”. 

Derivas Analíticas: Interessante ele ser considerado a “caixa d’água do Brasil”. Por ser marcado por estações de grandes secas, geralmente prevalece a ideia de que falta água no Cerrado. E você nos informa que não, ao contrário, ele é fonte de água! 

MS: É verdade, essa é a primeira impressão que temos! Por isso, é tão importante conhecer melhor esse bioma. Outra coisa que costuma enganar, por exemplo, é a impressão de que suas plantas são pequenas, um tanto insignificantes. Mas o que acontece é que elas crescem muito mais para baixo do que para cima, desenvolvendo raízes muito longas, adaptadas para buscar água nas profundezas da terra durante o período de seca: é por isso que o Cerrado também é conhecido como “floresta invertida”. É fundamental entender que o Cerrado é uma savana: um bioma cujas paisagens são marcadas por amplas extensões de campos, onde predominam os capins, com árvores e arbustos espalhados. Na verdade, o Cerrado é um mosaico composto por vários ecossistemas, as chamadas fitofisionomias, e conta também com matas, veredas e outros tipos de formações. Mas, de qualquer forma, nele predominam as paisagens abertas, savânicas. E não bastasse ter, no coração do Brasil, uma savana tão extensa, ela é a mais rica em biodiversidade do mundo! Das mais de doze mil espécies de plantas que ocorrem no Cerrado, 40% não existem em nenhum outro lugar do planeta, ou seja, são endêmicas.

Cerrado: savana brasileira
(Chapada dos Veadeiros - GO, estação seca). 

 
Campo de sempre-vivas, plantas de uma das famílias mais emblemáticas do Cerrado, a Eriocaulaceae.

(Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros - GO).

Assim, o Cerrado é um bioma muito rico e muito importante mesmo. Um tesouro do qual deveríamos nos orgulhar. E, no entanto, essa grande savana brasileira sequer figura no nosso imaginário popular, na nossa noção de natureza. Quem, no Brasil, vai pensar em uma savana, e não em uma floresta, quando ouvir a palavra “natureza”? É fundamental proteger e valorizar as florestas tropicais úmidas, como a Amazônia e a Mata Atlântica, mas já passou da hora de dedicarmos afeto e atenção também à nossa savana. Porque, enquanto não a conhecermos e a valorizarmos, continuaremos a assistir, com passividade, sua colossal destruição, sua substituição, em ritmo frenético, por monoculturas agroindustriais que, na prática, sequer são as verdadeiras responsáveis por colocar comida em nossa mesa (mais de 2/3 da alimentação dos brasileiros são provenientes da agricultura familiar).

O Cerrado é devastado para dar lugar a monoculturas agroindustriais de milho e soja,
em algum lugar de Goiás, e Brasil Central adentro.

É nesse sentido que acredito que fazer jardins com plantas nativas – sobretudo aquelas da flora rasteira, os capins, as plantas mais baixinhas, com flores miúdas, que predominam na nossa savana e a caracterizam – pode ter uma importância estratégica na conservação do bioma Cerrado. Porque, para querer cuidar, é preciso conhecer e amar. E acho que conhecer o Cerrado passa necessariamente por entender que ele é uma savana e por superar a exclusividade que damos às árvores e às florestas na imagem que temos de natureza tropical. Via de regra, as plantas do estrato rasteiro do Cerrado não são vistas, valorizadas, estudadas. Muitos acham que são apenas “mato”, algo sem valor intrínseco. E, no entanto, elas são partes fundamentais desse bioma.

Derivas Analíticas: Você propõe uma mutação do olhar, revelando o detalhe pela via da beleza, fazendo ver essas plantas que ainda não são tão valorizadas como partes integrantes desse bioma.

MS: Exatamente! É que chega um ponto em que argumentos científicos, simplesmente, não são mais suficientes para nos sensibilizar e, com isso, nos levar à ação. E é aí que entra o projeto Jardins de Cerrado. Nossa aposta é que, ao trazer essas plantas para perto das pessoas, nas cidades, organizando-as em composições que ressaltem suas formas e cores, possamos, pela via da beleza, ajudar no estabelecimento de novos laços afetivos que, em última instância, possam inspirar o desejo de conservação. Apesar de ainda estarmos em fase de pesquisa e experimentação, já recebemos muitos retornos positivos de pessoas que, de uma forma ou outra, entraram em contato com o projeto Jardins de Cerrado: elas relatam que passaram a ver, por aí, em beiras de estradas, em terrenos baldios, na natureza, plantas que não viam antes, e também a ver beleza onde não viam antes. Isso é realmente muito gratificante. Elas passaram a perceber algo que já estava ali, mas que, no entanto, era ignorado.

Plantas da flora rasteira do Cerrado.

Derivas Analíticas: E quais foram suas influências na idealização do projeto Jardins de Cerrado?

MS: Sem dúvida, as influências primordiais na concepção desse projeto são a vida e a obra de Roberto Burle Marx. Através de seus jardins, ele evidenciou a beleza exuberante da flora brasileira e rompeu com o paradigma vigente, baseado na importação de plantas e estilos europeus. Burle Marx vivia cercado por botânicos, e juntos faziam expedições para os quatro cantos do País, para conhecer a flora nativa. Eles faziam coleta de plantas para identificação botânica e para testar sua reprodução – ele mesmo tinha um grande viveiro em seu sítio, e sua equipe foi responsável pela domesticação de muitas espécies. Roberto desenvolveu uma linguagem absolutamente própria e original para utilizar essas plantas, apoiando-se no que havia de mais contemporâneo no mundo das artes e, com isso, fundou o paisagismo moderno, tornando-se referência em todo o mundo. A partir do contato com seus jardins, seus contemporâneos puderam passar a olhar para a flora tropical com outros olhos – aquilo já não era mato, ou algo ameaçadoramente selvagem, mas sim uma expressão da nossa identidade autêntica e tropical, algo a ser valorizado. Assim, teria sido impossível pensar o projeto Jardins de Cerrado, senão sob a luz do legado de Burle Marx. Outra grande influência para o projeto são os jardins naturalistas contemporâneos. Um de seus representantes mais expressivos é o holandês Piet Oudolf, que fez, por exemplo, o projeto de plantio do High Line Park, em Nova Iorque. Esses jardins rompem com a concepção de paisagismo estruturado por grandes blocos monoculturais para dar lugar a canteiros com alta biodiversidade, onde se misturam capins e plantas herbáceas perenes (ou seja, plantas que não têm caules de madeira e que duram “para sempre”). Isso significa que eles são muito mais ecológicos que os jardins convencionais: além da alta biodiversidade, que dá mais suporte para a fauna (sobretudo para os insetos polinizadores, que enfrentam risco de extinção em todo o mundo), os jardins naturalistas demandam menos rega ou manutenção.


Jardins do holandês Piet Oudolf: profusão de gramíneas e plantas herbáceas perenes.
Fotos: <www.pietoudolf.com>

Adoro o caráter meio caótico dos jardins naturalistas: neles, a ideia de controle tem muito menos vez que nos jardins convencionais. O paisagista tem que conhecer bem a flora com a qual está trabalhando para que, a partir de um refinado planejamento inicial, a nova comunidade vegetal possa ganhar vida própria, mudar ao longo do tempo, surpreender e receber espontaneamente novas espécies, enquanto perde outras, mas sempre de forma a continuar interessante e bonita, enquanto jardim. Esses jardins têm um caráter mais selvagem, são trabalhados a partir de noções como impermanência e espontaneidade, e requerem certa dose de desapego por parte daquele que os projetou. Eles também trazem um novo olhar sobre a questão da sazonalidade, pois são feitos para celebrar a singularidade das diferentes estações, tão marcadas nos países de clima temperado: quando flores e folhas já perderam seu vigor, eles nos ensinam a apreciar a estrutura das plantas, mesmo que secas, mesmo que mortas. O paisagismo naturalista contemporâneo nos permite abraçar de forma mais abrangente os ciclos da vida-morte-vida a partir da experiência do jardim. Vale lembrar que, no Cerrado, também há forte sazonalidade, na forma de períodos de chuvas abundantes seguidos por períodos de forte seca.


Celebração da sazonalidade: jardins de Piet Oudolf no outono e no inverno.
Fotos: <www.pietoudolf.com> e <www.instagram.com/pietoudolf>. 

A princípio, o que me chamou a atenção nos jardins naturalistas foi a sua plástica, porque aquele conjunto de capins e florezinhas realmente me lembravam as plantas do Cerrado. Eles são inspirados em prados e estepes, que, do ponto de vista formal e sob alguns aspectos ecológicos, têm traços em comum com a savana. Minha aposta, assim, é que a estética desses jardins contemporâneos contenha algumas importantes chaves para a criação de uma expressão paisagística da savana brasileira. Especialmente porque, culturalmente, no nosso país, ainda não estamos muito habituados a trabalhar com a imagética dos campos abertos. A ideia não é copiar ou importar indistintamente um padrão estético, mas aproveitar experiências que possam nos fazer avançar com mais segurança. Acreditamos que a singularidade da flora do Cerrado acabará, por fim, dando origem a jardins igualmente singulares. Entre os paisagistas que fazem jardins naturalistas atualmente, uma tem especial significado para mim: a argentina Amalia Robredo. Ela morou durante alguns anos na costa do Uruguai e quando chegou lá, se deparou com muitas plantinhas lindas da flora nativa, que eram totalmente ignoradas pela população. Ela tratou de conhecer aquelas plantas e de domesticá-las para, então, utilizá-las em projetos de paisagismo, obtendo grande sucesso. Logo no começo do projeto, entrei em contato com ela, que entusiasmadamente se somou a nós, dividindo sua experiência com generosidade. Hoje ela é parte integrante dos Jardins de Cerrado e contribui ativamente com nossos esforços.

Jardins da paisagista argentina Amalia Robredo, que investigou a flora rasteira nativa da costa do Uruguai 
e introduziu em seus jardins plantas que antes passavam despercebidas pela população. Foto: Amalia Robredo. 

Derivas Analíticas: Quais os desafios já encontrados e quais dificuldades você pensa que enfrentará ao longo da realização desse projeto? 

MS: A Amalia sempre diz que, para mudar de forma relevante a cultura paisagística de um lugar, é preciso atuar no tripé paisagistas-clientes-viveiristas. Ou seja, criar a oferta e a demanda – um baita de um desafio. Fora isso, temos, é claro, a questão da domesticação das plantas em si, que ainda estamos começando a testar. Sabemos que vai ser um longo caminho, que vamos trilhar aos poucos, na medida das nossas possibilidades. A nosso favor, temos o entusiasmo das pessoas que apoiam nossas primeiras iniciativas: sentimos que a vontade de trazer o Cerrado para mais perto da nossa vida cotidiana é compartilhada por muita gente. 

Derivas Analíticas: Em que os Jardins de Cerrado podem contribuir para pensar as cidades contemporâneas? 

MS: Fazer jardins com plantas nativas oferece uma série de vantagens pragmáticas: suas plantas são naturalmente adaptadas ao clima e aos solos do lugar, o que faz com que demandem menos irrigação, manutenção, controle de pragas. Isso quer dizer que eles tendem a consumir menos recursos naturais, financeiros e humanos. Como comentei antes, os jardins com plantas nativas também têm funções ecológicas importantes, sobretudo na questão da biodiversidade: as plantas são a base de uma enormidade de cadeias alimentares na natureza. O Cerrado é um bioma com muita especialização, o que quer dizer, por exemplo, que seus animais, como os insetos polinizadores, dependem de plantas muito específicas para conseguir seu alimento. E como estamos destruindo essas plantas, estamos também destruindo esses animais, e todos aqueles que dependem deles nas cadeias alimentares, criando um nefasto efeito dominó. Plantar nativas significa, portanto, uma tentativa de restabelecer certos elos ecológicos que foram rompidos com o processo de urbanização. 

Derivas Analíticas: Ampliando, assim, a diversidade de experiências na cidade e propondo uma nova maneira de projetar e pensar espaços urbanos. 

MS: Sim, inclusive, hoje em dia é crescente o interesse pelo tema biodiversidade urbana, e há aí dois aspectos relevantes a considerar. Primeiro é o fato de que nas cidades há mais biodiversidade do que podemos imaginar – basta apurar o olhar para começarmos a enxergar pássaros, abelhas, larvas, borboletas, morcegos, plantinhas que teimam em germinar nos lugares mais improváveis. Além disso, novos estudos apontam para a ideia de que as cidades são fundamentais na conservação da biodiversidade, a partir da compreensão de que parques e reservas naturais, apenas, não são suficientes para garantir sua perpetuação. É preciso superar uma certa noção de que natureza e cidade são espaços antagônicos e, pelo contrário, buscar trazer de volta, de forma consciente, a natureza que já arrancamos do solo das cidades ao construí-las. Por fim, trabalhar com plantas nativas significa valorizar a paisagem circundante e dialogar com ela – algo que me parece especialmente relevante no caso do Cerrado, o gigante incompreendido. Temos uma identidade savânica para trazer à tona, e os jardins podem ser uma das formas de fazer isso, de criar relações interessantes entre cultura e natureza.

Jardim de Amalia Robredo: interação entre plantas, pessoas e animais. Foto: Amalia Robredo. 

Entrevista realizada e editada por Camila Nuic entre os dias 25 e 30 de agosto. Camila é psicanalista, colabora com Derivas Analíticas e se encanta pelo tempo das coisas sempre vivas. Tem um carinho especial pelo capim-estrela, pelos troncos retorcidos e pelos ipês em vésperas de setembro.

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