• Home
  • Entrevista Tadeu

Lúcia: Você escreve no seu texto de apresentação da exposição Arte Popular no Brasil, apresentada na Galeria Pedro Moraleida, do Palácio das Artes, que a arte popular sofreu forte influência das culturas indígena e negra e do colonialismo europeu. Você poderia falar um pouco de cada uma dessas influências?

Tadeu: Iniciemos pela questão dos africanos. Com a escravidão, tivemos um número muito grande de africanos que vieram trabalhar no Brasil, influenciando muito as artes. Essas pessoas traziam o universo cultural ao qual pertenciam e suas tradições. Nesse período, elas passaram a executar inúmeras obras de arte (santos com fisionomias africanas, oratórios com adornos de rituais, moringas e utensílios diversos), tudo isso baseado na tradição de lá.

Os portugueses também trouxeram suas tradições, sua riqueza cultural. Quando da exploração do ouro em Minas Gerais, inúmeros templos religiosos foram erguidos, ocasionando a vinda de inúmeros artesãos de Portugal e até mesmo artífices especializados na aplicação de lâminas de ouro no acabamento das imagens religiosas e das talhas nos altares. Tudo isso baseado na policromia tradicional do barroco do século XVIII, com seus característicos grafismos e arabescos.

L.: Qual a matéria que predomina nessas obras?

T.: A matéria era a madeira em predominância, porém existiam peças feitas com terracota, uma pedra mais macia e fácil de esculpir na hora de cavar, sem exigir muito esforço. Além disso, existia também a imaginária sacra em barro típica da região paulista. São os chamados santos “paulistinhas”.

L.: E os índios?

T.: Eles deram também uma contribuição na parte religiosa, executando imagens de forte influência de sua cultura. Na região de Goiás Velho surgiu, no século XVIII, uma oficina de escultura com características tipicamente indígenas e bem diferenciadas. Na verdade, essas peças são hoje raras de serem encontradas. Sem falar na região das Missões, no Rio Grande do Sul, onde surgiram os primeiros santos no Brasil executados por índios sob a orientação dos jesuítas que ali se estabeleceram com a missão de catequizar os índios escravizados. Tudo isso ficou como um grande legado histórico para a arte brasileira.

L.: Pensando mais na arte popular, temos hoje muita coisa parecida, como se houvesse uma reprodução.

T.: O artista nato é aquele que faz uma arte genuína e livre de qualquer influência. Entretanto, muitas vezes ocorre de os familiares do artista, vendo o êxito por ele alcançado e a fonte de renda obtida, procurar imitá-lo, passando a reproduzir em série aquilo produzido com tanta naturalidade e espontaneidade. Isso se vê na família de GTO e na família Julião, em Prados, com a produção daqueles imensos leões em madeira. Entretanto, o resultado é uma obra fraca, repetitiva, sem qualquer vigor e um acabamento a desejar. O intuito é eminentemente econômico.

Outro exemplo são as bonequeiras do Vale do Jequitinhonha. Dona Isabel e Placidina Fernandes foram as primeiras delas, com uma produção original, de alta qualidade e beleza plástica, a ponto de lembrarem figuras egípcias. Claro que há que se considerar a dimensão econômica da coisa, a popularização das bonecas injetando divisas para a região, já que muita gente sobrevive disso. Entretanto, nem sempre a abundância traz qualidade e beleza.

L.: Surgem nomes novos? Uma nova artista?

T.: Sim, surgem nomes novos vez ou outra. Posso citar Rosana Pereira, neta do grande Ulisses Pereira Chaves, que trabalhava com peças utilitárias, figuras zoomorfas e zooantropomorfas. No passado, tive a honra de realizar uma exposição individual dele no saguão de entrada da Escola de Arquitetura, na rua Paraíba, em Belo Horizonte. Há dois anos, já no Centro de Arte Popular – CEMIG, promovi uma exposição de Rosana Pereira, com uma produção inédita, contendo híbridos, cruzamentos e interações de animais de espécies diferentes a contar histórias fora do cotidiano, que tanto alimentam a imaginação do povo: a vaca que abraça o pato, o boi que beija a pata e sucessivos bichos se amando. Tudo com domínio técnico e muita originalidade. Além dela, há muitos outros novos artistas surgindo com trabalhos muito criativos. Isso vem ocorrendo em predominância no nordeste do país, sobretudo nos estados do Ceará, Alagoas e Maranhão.

L.: Como acontece a diferença entre arte popular e arte erudita?

T.: O artista erudito é aquele que passou por uma escola, que teve aprendizado, que se preocupa com a forma, o equilíbrio, a proporção e a conjugação de cores. A arte popular surge mais livremente, sem maiores preocupações estéticas advindas de ensinamento. Muitos acham que, pelo fato de possuírem um diploma, são grandes artistas. Entretanto, o fato de se concluir um curso de Belas Artes não significa que o trabalho seja de qualidade. Nem todos são humildes a ponto de reconhecerem suas limitações.

L.: Voltando aos grandes artistas populares, queria fazer uma pergunta: desde o início, GTO assinava suas obras?

T.: Não. Eu mesmo tenho uma peça dele na minha coleção não assinada. Acredito que no início ele não assinava. Aos poucos, os críticos de arte, colecionadores e galeristas passam a orientá-lo nesse sentido. Ademais, os próprios artistas passam a ter consciência do valor da obra e da necessidade de identificação.

L.: Vendo alguns documentários sobre arte rupestre, me chamou a atenção o fato de que a pintura rupestre se parece com as pinturas da arte popular. O que você acha disso?

T.: Creio que isso advenha do inconsciente coletivo. (risos) Em Minas Gerais as primeiras manifestações artísticas foram as pinturas rupestres. No norte de Minas temos sítios arqueológicos na região do Vale do Peruaçu, dentro das cavernas, nos lugares onde as pessoas habitavam, com pinturas retratando os costumes da época.

Maria Lira Marques, uma artista do Vale do Jequitinhonha, faz pinturas, por ela chamadas de “meus bichos do sertão”, que nos remetem diretamente à arte rupestre. Ela se utiliza do papel e das pedras de seixo rolado como base. Outra linha do trabalho executado por essa artista vem a ser as máscaras de cerâmica mesclando influência negra e indígena. Importante registrar ainda na obra dessa artista a utilização de pigmentos naturais extraídos da terra. Nessa região, é muito comum a adoção dessa técnica rudimentar, o que contribui em muito para a riqueza e originalidade da peça. Os tons obtidos com a extração de pigmentos da terra e dos vegetais diferem em muito da tinta industrializada. Não se pode deixar de mencionar a obra da ceramista Noemisa Batista dos Santos, toda executada através da tabatinga e do toá. Por último, cito ainda D. Mundinha, que durante anos se utilizou de uma mistura com farinha de trigo para compor suas peças. A rigor, o Vale do Jequitinhonha em Minas constitui o principal e o mais criativo núcleo cerâmico no país, seguido de Pernambuco.

L.: Gostaria de saber um pouco sobre o seu percurso na arte popular.

T.: Meu primeiro contato com a arte popular se deu através das cerâmicas do Vale do Jequitinhonha. Encantei-me quando as conheci. Iniciei a minha coleção aos 20 anos de idade. Na época, essas cerâmicas tinham pouco valor comercial, o que me permitia adquiri-las com dinheiro de mesada. Devo meu interesse e formação artística ao meu pai, que constantemente me presenteava com livros de arte. Ele possuía uma vasta biblioteca e frequentava habitualmente a extinta Livraria Itatiaia, pertencente aos irmãos Moreira. Às vezes, gostava de acompanhá-lo nas suas frequentes idas à livraria, pois apreciava a conversa do grupo encabeçado pelo acadêmico Vivaldi Moreira, da Academia Mineira de Letras, além de me encantar com o prédio onde se situava a livraria na rua Bahia, o famoso Edifício Park Royal.

L.: Então você seria um autodidata.

T.: Creio que sim. Na verdade, sempre tive uma tendência artística. Posso dizer que minha vida mudou por completo ao conhecer Conceição Piló, artista plástica e diretora do Museu de Arte da Pampulha. Muito observadora, ela percebeu desde logo meu entusiasmo pela arte e passou a me convidar para ajudá-la nas montagens de importantes exposições no museu. Nesse período, convivi com renomados críticos de arte que vinham de fora para os julgamentos dos salões de arte, tais como Alberto Beuttenmüller e Clarival do Prado Valladares, além de conhecer inúmeros artistas. Desse convívio resultou minha amizade com o paisagista Roberto Burle Marx, que ali realizou duas mostras. Mais tarde, ao fundar e dirigir o Espaço Cultural do Pampulha Iate Clube, tive a honra de realizar uma exposição de pinturas desse grande nome brasileiro. Não bastasse isso, minhas frequentes idas ao sítio desse artista em Barra de Guaratiba ensinaram-me que o requinte na colocação de obras de arte decorre da simplicidade e não do rebuscamento e da ostentação.

L.: Então sua formação na área das Artes foi muito prática.

T.: Minha formação profissional é de advogado. No entanto, paralelamente, sempre atuei nas artes. Participei de vários Festivais de Inverno em Ouro Preto, fiz alguns cursos de desenho com renomados professores de arte, mas nada oficial. Tudo na prática mesmo.

L.: Há quanto tempo você está aqui no museu?

T.: Estou aqui há quatro anos. Nesse período, realizei uma vasta programação, uma média de cinco mostras por ano.

L.: E o público do Museu de Arte Popular, como é?

T.: O museu recebe um público razoável, já que, a rigor, o brasileiro não tem o hábito de frequentar museu. Vai como última opção. No entanto, quando visitam Paris, Madri e outras capitais europeias, interessam-se pelos museus do Louvre e do Prado, mais para dizerem que estiveram à frente da Mona Lisa, de Da Vinci e de Guernica, de Picasso. Passeio cultural só lá fora. Por outro lado, os visitantes estrangeiros que passam pelo Centro de Arte Popular – CEMIG saem daqui maravilhados. Na verdade, essa questão começa na infância. Na Europa, os museus recebem diariamente um enorme público infantil. Por aqui, as coisas começam a melhorar, pois os agendamentos escolares passaram a ser frequentes. No entanto, 90% de escolas públicas. Colégios particulares onde estudei, como o Marista e o Loyola, nunca estiveram por aqui. As exceções são os colégios Salesiano e Santo Agostinho.

L.: A educação no Brasil não incorporou a arte.

T.: Sim. Não bastasse isso, os pais levam seus filhos à Disney e a Dubai, mas não se preocupam em mostrar-lhes os museus brasileiros. A recente tragédia no Museu Histórico no Rio de Janeiro é a demonstração cabal do descaso público com a arte e com a memória nacional.

L.: Obrigada por esta conversa.

 Imprimir  E-mail