Apresentação de pacientes: de que sujeito se trata

Do sujeito do significante ao corpo falante

 

Cristiana Miranda Ramos Ferreira

 

Discurso do analista: tocar o sujeito no doente

Dar a palavra ao paciente. Foi assim que Lacan[1] caracterizou suas apresentações:

Em suma, e para lhe prestar homenagem, foi em torno dessa paciente, Aimée, que fui aspirado para a psicanálise. Não foi só ela, é claro, alguns outros antes e muitos depois para quem dei a palavra, eis em que consistem minhas apresentações de pacientes.[2]

Todavia é curioso pensar por que Lacan ressalta essa dimensão da fala como algo que marca a diferença entre a sua prática e as apresentações realizadas pelos psiquiatras. Afinal, ao longo de toda a psiquiatria clássica, de Esquirol (1817)[3] a Clérambault (1934),[4] (de quem inclusive Lacan foi aluno), a apresentação de pacientes ganhou lugar de destaque justamente por encontrar na fala do paciente seu principal instrumento para apreensão da loucura. Sem um saber ainda estabelecido, era através do relato do paciente, que se podia destrinchar a multiplicidade caótica de fenômenos e sintomas, diferenciando-os, descrevendo-os, ordenando-os, classificando-os. Para tanto, os pacientes eram convocados a falar de sua história, de sua doença, de seus fenômenos. Dessa forma, a apresentação de pacientes, encontrava na narrativa do paciente seu principal meio para precisar o diagnóstico e o prognóstico do caso em questão, bem como para constituir o saber psiquiátrico de uma maneira geral, se consolidando, então, como interessante dispositivo de articulação entre a clínica, a pesquisa e o ensino.

Contudo, se para caracterizar sua prática Lacan chama atenção para a questão da fala, é preciso assinalar que seu interesse, diferentemente dos psiquiatras, não visava a descrição da doença nem a compreensão das vivências e dos sofrimentos do paciente. Portanto, em suas apresentações, ao convidar o paciente a falar, Lacan não visava o doente enquanto dimensão imaginária do Eu, passível de ser compreendido pela via da intersubjetividade, no eixo a-a’. Lacan visava o sujeito do inconsciente, deslocando, assim, o interesse do enunciado para a enunciação.

Portanto, quando falava em suas apresentações, Lacan dava a palavra ao paciente. Trata-se antes de uma mudança da operação discursiva do que de um simples método de abordagem. Durante a psiquiatria clássica, a apresentação era animada principalmente pelo discurso do mestre. Posicionado enquanto senhor e mestre da loucura, o psiquiatra interrogava, confrontava, pressionava o paciente, desestabilizando-o, provocando-lhe uma crise, de forma a presentificar seus fenômenos e produzindo, assim, um saber sobre a doença mental.

Era do lugar de analista que Lacan conduzia suas apresentações, portanto sua referência não poderia ser outra senão o discurso do analista. Assim, Lacan agenciava o discurso, se endereçando ao sujeito a partir de uma posição de ignorância, esvaziado de saber seja sobre o doente, seja sobre doença, acolhendo o saber do próprio paciente, abrindo as possibilidades para que algo de singular pudesse emergir. Operar a apresentação de pacientes a partir do discurso do analista implica tomar as mesmas coordenadas que orientam a clínica psicanalítica, introduzindo aí a subversão freudiana fundadora da psicanálise, ou seja, reconhecendo que há um sujeito no doente.

Contudo, como nos adverte Miller,[5] “[...] não basta se calar e escutar para se entrar, com isso, no discurso analítico”, mas é preciso agenciar o discurso desse lugar. Com Lacan aprendemos que a posição do analista é de uma “[...] submissão completa, ainda que advertida, às posições propriamente subjetivas do sujeito”.[6] Para tanto, é preciso não compreender o paciente. É essa posição de ignorância, operada a partir do “não compreender” que instaura o discurso do analista. Portanto, essa posição de “submissão advertida” não tem nada de passiva. Ao contrário, ao “não compreender”, o analista vai de maneira ativa ao encontro da posição do sujeito. É nesse sentido, enquanto operação discursiva (a→$) que podemos entender a proposição de Laurent:[7] “Lacan [em suas apresentações] tentava tocar o sujeito no doente”. Expressão que ainda hoje se coloca como um orientador de nossa prática.

E o que seria “tocar o sujeito no doente”? Podemos dizer que é justamente buscar o ponto de real, ou seja, o ponto que escapa à significação, ponto enigmático para o sujeito, que toca algo do insuportável, visto “[...] que não pode ser recoberto nem pela palavra, nem pela imagem”.[8] Quanto mais próximo desse ponto de real, mais a palavra se torna escassa. Contudo, na medida em que o analista não compreende, mas oferta ao paciente a possibilidade de falar, isso lhe permite tentar formular suas respostas, tentar se explicar, dando ao sujeito uma chance de tomar alguma distância do insuportável. Ou seja, dar uma oportunidade à palavra é abrir ao sujeito a possibilidade de bordejar, circunscrever o gozo que o acomete, permitindo-lhe “[...] afastar-se do impossível de suportar para poder começar a falar”.[9]

Todavia, uma questão se coloca: o que se quer “tocar”, é o mesmo quando se considera o sujeito do significante, do inconsciente estruturado como uma linguagem, referido ao Lacan dos anos 1950, e o sujeito do gozo, o falasser e seu corpo falante, referido ao Lacan dos anos 1970? Afinal, do primeiro Lacan para o segundo houve importantes reformulações conceituais, com implicações tanto no modo de estabelecer o diagnóstico quanto na direção do tratamento, o que incidiu sobre as manobras da transferência e suas finalidades.

A clínica estrutural e os distúrbios da linguagem

Temos assim que, na primeira clínica – a clínica estrutural – a psicose é abordada a partir da forclusão do significante do Nome-do-Pai, cujo índice deve ser localizado no nível da linguagem: “[...] para que estejamos na psicose, é preciso haver distúrbios de linguagem”.[10] Assim, “tocar o sujeito” é o que “[...] possibilitaria a emergência do mesmo, sob a forma de delírio e talvez da metáfora delirante”[11] ou ainda de fenômenos elementares tais como um neologismo, um automatismo mental, uma alucinação verbal.

Em O seminário, livro 3: as psicoses, encontramos dois exemplos clássicos dessa orientação clínica, sobre os quais Lacan relata importantes achados feitos durante suas apresentações. Na primeira apresentação Lacan[12] revela que demorou cerca de uma hora e meia para tirar da paciente “[...] o signo, o estigma que provasse que se tratava realmente de uma delirante, e não simplesmente de uma pessoa de caráter difícil que está em conflito com seu meio”. Tratava-se do neologismo galopiner, fenômeno que para Lacan[13] revelava a linguagem “[...] de sabor particular e frequentemente extraordinário, do delirante”. Portanto, a presença de um distúrbio da linguagem se mostra suficiente para definir o diagnóstico, visto que desvela a posição estrutural do sujeito psicótico.

Na segunda apresentação, o destaque recai sobre a forma como Lacan conseguiu vencer a resistência de uma paciente que não se mostrava muito disposta à apresentação. Lacan avalia que foi “certa doçura” que ele havia posto na aproximação da moça, o que teria permitido a queda de reticência, dispondo o sujeito à fala. É assim que a paciente lhe confia que havia sido vítima de atos hostis: ao cruzar com o amante da vizinha no corredor, este lhe dissera um palavrão: “Ele disse – Porca”.[14] Entretanto, é preciso marcar que esse “Porca” não foi entregue facilmente, mas veio como efeito da intervenção de Lacan. É somente por não a compreender que Lacan chegou a capturar o paradigmático: “Porca”, cuja confissão evidenciou uma vivência alucinatória, efeito da ruptura da cadeia da linguagem, reveladora do retorno no real, daquilo que fora forcluído no simbólico. Como efeito dessa perspectiva estrutural sustentada na hegemonia do simbólico, nas apresentações de paciente dessa época, tratava-se, portanto, de verificar a relação do sujeito com a linguagem e suas possibilidades da construção de uma metáfora delirante, como elemento orientador para a direção do tratamento.

A clínica borromeana e as amarrações possíveis

Já na segunda clínica, a clínica borromeana, a forclusão é generalizada. Há uma relativização do Nome-do-Pai, que passa a ser concebido como uma das formas de atar os registros Real, Simbólico e Imaginário. Se o Nome-do-Pai é a forma neurótica de enodamento, há, entretanto, outras modalidades de amarração. Na apresentação de paciente, o que interessa, então, é verificar de que tipo de amarração se serve o sujeito. Se há falhas no enodamento borromeano, quais modos de amarração se fazem possíveis para suprir essa falha.

Da apresentação de pacientes sob a perspectiva borromeana, temos como exemplo paradigmático a apresentação do Sr. Gérard Primeau, paciente entrevistado por Lacan em 1976.[15] Sobre a entrevista de Primeau, é interessante observar que Lacan não desconsidera o fenômeno elementar; ao contrário, ele o considera quando fala da divisão de seu pensamento em frases impostas e frases refletidas. Lacan pede que o paciente dê exemplos, numa tentativa de ilustrar, isolar esse fenômeno. Não obstante o interesse de Lacan pela descrição do distúrbio de linguagem, este perde seu caráter de definidor do caso.

Como observa Santiago,[16] à leitura borromeana o que interessa é que esse “fenômeno que na sequência se agrava sob a forma de delírio telepático”, indique uma interpenetração do simbólico e do real, sendo a telepatia, efeito da continuidade “[...] entre a palavra pensada e a coisa pensante, [...] que em última instância, é signo da falta de semblantes para lidar com o traumatismo da língua”.[17] Há também uma mudança de estatuto do interesse no delírio. A construção delirante deixa de ser uma solução interessante. Em mais de um momento da entrevista, quando Lacan percebe que o registro do imaginário começa a se soltar para produzir o delírio, sua intervenção é conter a deriva do paciente em lugar de acolher sua produção delirante. Com sua palavra Lacan conduz o paciente de volta à entrevista, enodando novamente o imaginário. “Lacan faz intervenções a partir do nó borromeano contra o desenlaçamento do nó”.[18]

Psicose ordinária: efeito de desordem no sentimento mais íntimo de vida

Esse é um caso de diagnóstico mais fácil, pois há uma psicose evidente, com a presença de fenômenos de linguagem, efeito de certo afrouxamento do registro imaginário. Entretanto, há casos em que, embora o Nome-do-Pai não opere como uma amarração, como um elemento ordenador do gozo, outros elementos puderam fazer algum enlaçamento capaz de ordenar o mundo para o sujeito, funcionando, assim, como um Nome-do-Pai. É o que Miller[19] chamou: “[...] um compensatory make-believe (um fazer-crer compensatório) do Nome-do-Pai, um CMB”. Trata-se de uma psicose difícil de reconhecer como tal, pois não há a presença de fenômenos clássicos, visto que tal amarração impede o desencadeamento. É o que temos nomeado psicose ordinária. Como o Nome-do-Pai é um substituto do desejo da mãe, nesses casos, ele mesmo está substituído por outras amarrações. Essa compensação pode ser efeito de novas formas de sintoma, como transtornos alimentares, toxicomanias, fenômenos psicossomáticos ou outras formas de grampos, amarrações, como identificações, produções artísticas, compensações imaginárias, tais como uma vestimenta, tatuagens, piercings, etc.

Essa amarração compensatória pode obturar a diferença entre neurose e psicose, o que acentua o desafio de estabelecer um diagnóstico. Um orientador importante que temos tido como referência para o diagnóstico diferencial é o artigo de Miller[20] Efeito do retorno à psicose ordinária. Se, antes, na ausência de sinais claros de psicose, isso implicava pensar numa neurose, hoje é preciso dizer por que é uma neurose. Miller[21] aponta que a neurose é uma estrutura muito precisa, estável, que tem indicativos claros. Se não conseguimos encontrar esses elementos bem definidos, bem recortados, marcados pela repetição, pela regularidade simbólica que caracterizam a neurose, então a psicose ordinária pode ser “deduzida” a partir de pequenos indícios variados.

Assim, para “deduzir” uma psicose, Miller[22] vai indicar que devemos buscar pequenos indícios de uma desordem provocada na “[...] junção mais íntima do sentimento de vida no sujeito”. Tais indícios dessa desordem no “sentimento da vida” devem ser situados nos três registros, o que ele chamou de uma tripla externalidade: uma externalidade social, uma externalidade corporal e uma externalidade subjetiva. Ou seja, pequenas desordens na forma como um sujeito experimenta o mundo, seu corpo, suas ideias.

Contudo, como problematiza Miller,[23] os neuróticos também experimentam suas desordens tanto no corpo quanto nos seus atos, no seu pensamento e nas suas relações. Além disso, é preciso considerar que, na contemporaneidade, com o declínio do simbólico, o império das imagens e o empuxo ao gozo, as neuroses não são como antes, pois nelas temos encontrado uma precariedade do simbólico.

Diante de casos como esses, em que não há presença de fenômenos clássicos de psicose nem de fenômenos de linguagem, cabe ao entrevistador localizar se há sinais de que as amarrações do sujeito têm relação com o Nome-do-Pai (não com um Nome-do-Pai), se elas passam pela significação fálica, se há relação com a castração, o que nos localizaria no campo da neurose, ou se as amarrações se sustentam em outra coisa. Nessa investigação, um orientador interessante é procurar delimitar a fantasia, verificar se é possível consistir a fantasia enquanto resposta ao desejo do Outro. Conforme propõe Beneti,[24] a fantasia histérica deve ser caracterizada sobre três pilares: amor, desejo e gozo. Teríamos assim: a erotomania, o desejo insatisfeito e, como posição de gozo, fazer-se objeto precioso para completar o Outro, para em seguida apontar-lhe a impotência. Aplicando esse mesmo critério à neurose obsessiva, poderíamos pensar a morte sob a questão do estar vivo ou morto, o desejo como impossível e como posição de gozo, o “tudo para o Outro”.

Se não se consegue precisar uma neurose, pode-se buscar constatar os diferentes modos de enodamento, que se dão a ver na pregnância do imaginário aliada a uma ancoragem simbólica frágil, ou na relação de estranheza entre o eu e o corpo, ou ainda no exercício desenfreado da pulsão desconectada de qualquer dialética discursiva”.[25] Se não encontramos esses sinais de forma mais clara, como orienta Miller, muitas vezes o diagnóstico diferencial irá se definir numa questão de intensidade, de tonalidade, de excesso.

Como pudemos ver, os critérios vão ficando cada vez mais sutis. O diagnóstico se elucida na minúcia, no detalhe. Temos assim, que o “tocar o sujeito” do significante já não é suficiente para elucidar um caso. Na clínica borromeana, o ponto que se quer “tocar” é o “traumatismo da linguagem”. O traumatismo da linguagem e seus efeitos sobre o corpo são geralmente localizáveis a partir de pontos de inércia de gozo. É preciso ver como o sujeito se vira com isso. Se esse traumatismo afeta, se provoca uma desordem na “junção mais íntima do sentimento de vida do sujeito”, estamos na psicose. Desse modo, o entrevistador tem que se encontrar no equilíbrio entre o deixar-se conduzir pelos efeitos de surpresa (surpresa essa que permite tocar o “traumatismo”) e a posição ativa de buscar os diversos elementos que precisa verificar.

Há algum tempo tivemos a oportunidade de testemunhar uma apresentação de paciente que nos permite justamente exemplificar essa questão.[26] Tratava-se de Ana, uma jovem anoréxica, frente à qual a equipe responsável pelo tratamento se dividia entre os diagnósticos de histeria e psicose. Num primeiro momento, era difícil falar de índices claros, seja de neurose, seja de psicose, uma vez que os elementos que apareceram durante a entrevista permitiam diferentes leituras, como pudemos acompanhar na discussão após a entrevista. Por exemplo: a paciente se queixava de um vazio, do qual nada sabia explicar. Enquanto para alguns isso apontava para a falta-a-ser, efeito da castração, para outros, tratava-se do vazio, do furo do psicótico. Da mesma forma, os relatos da paciente acerca de sua relação com a irmã, a quem ela dizia “tomar como um espelho”, eram entendidos por uns como indicativo de que a irmã ocupava para a paciente a função da Outra mulher, fundamental na fantasia histérica, enquanto outros percebiam ali indícios de uma relação especular na qual o sujeito buscava uma certa sustentação do Eu, o que apontaria para uma psicose. Poderíamos lembrar ainda das diferentes leituras suscitadas a partir do relato de seu isolamento social – para aqueles que interpretavam o caso sob a perspectiva da neurose, isso indicava o efeito de um fazer-se excluir, enquanto para aqueles que se inclinavam para a psicose, tal isolamento seria antes o efeito de sucessivos desligamentos, visto sua impossibilidade de se sustentar no campo social.

Contudo, o que pudemos perceber é que a tentativa de dar sentido a cada fala da paciente não nos levaria adiante dos impasses até então enfrentados pela equipe. Porém, analisando a entrevista como um todo, o que se pode acompanhar é a apresentação sendo marcada por um movimento do entrevistador, aproximando-se e afastando-se dos pontos mais delicados, verificando em que medida as respostas da paciente às situações relatadas eram, ou não, orientadas pela fantasia.

Interrogada sobre sua dificuldade de dizer “não” ao Outro, ela responde: “Acho que isso foi a minha vida, tomar cuidado para não magoar”. Em função disso, não sai, não se relaciona, não faz nada. Essa frase foi repetida ao longo de toda a entrevista de formas distintas, mas apontando sempre para mesma posição – de desistir, de não ter opção, de ser um fantoche do outro.

À primeira vista, essa poderia parecer uma resposta fantasmática, “tomar cuidado para não magoar”, como um tratamento ao desejo do Outro, indicando sua posição de gozo. Contudo, o apresentador verifica sua consistência − ele a interroga várias vezes, vai contornando esse ponto de sua relação com o Outro, dando oportunidade à paciente para apresentar outras construções, vendo se isso se desdobra em alguma questão, se aponta para alguma coisa do desejo. Todavia, essa resposta não apresenta, de fato, as qualidades de uma fantasia. Em lugar de uma ordem simbólica, caracterizada pela dialética, pela dinâmica da resposta fantasmática, que articula o desejo a uma falta, o que vemos é uma fixidez: a paciente retorna sempre ao mesmo ponto.

Essa frase parece, antes, evidenciar uma fratura “[...] na junção mais íntima do sentimento de vida do sujeito”, efeito do impacto da linguagem que gera um furo, produzindo uma fixidez do gozo. Há, portanto, um núcleo real, que não se articula com as vertentes simbólica e imaginária. Uma fixidez enquanto objeto dejeto, o que presentifica um importante índice de psicose – a externalidade no registro da subjetividade. Essa desordem no registro da subjetividade parece ser uma desordem central no caso. O que antes se apresentava como elementos soltos, que pareciam distantes um dos outros e que, portanto, permitiam pensar tanto numa neurose quanto numa psicose, podem, então, ser conectados a partir de uma desordem central. Trata-se, então, segundo a orientação de Miller,[27] de “ordenar o caso”.

Retomemos a frase “tomar cuidado para não magoar [o Outro]”. Como já dissemos, embora pareça uma fantasia, trata-se antes de uma cobertura, puramente imaginária, uma tentativa precária de lidar com o furo, talvez uma maneira de tentar nomear essa fixidez do gozo. Não magoar, é uma forma de se proteger do Outro, que retorna para ela de forma ameaçadora. Por isso, ela não pode dizer ‘não’.

Essa desordem no registro subjetivo ressoa nos outros registros. Segundo seu relato, Ana se manteve bem até o momento em que sua irmã mais velha entrou na adolescência. A relação com a irmã, que até então poderia ser pensada como uma questão da histeria, na qual a irmã seria tomada como uma Outra mulher, se revela de fato uma relação de especularidade: é no corpo da irmã que Ana encontrava alguma sustentação para o corpo próprio. Uma hipótese: com o despertar sexual da irmã algo dessa ancoragem no corpo da irmã se desarranja. Nessa mesma época Ana experimenta seu primeiro beijo. Algo se desenlaça, e as coisas se desorganizam para ela. Foi nesse período que ela “perdeu a alegria”. A partir desse momento já não era mais a mesma pessoa.

Como efeito, percebe-se um desarranjo no registro social. Seu isolamento, que antes poderia ser entendido como um “fazer-se excluir”, pode ser tomado, então, como índice de uma externalidade social. Sem a proteção da ancoragem na irmã, Ana não tem recurso próprio para enfrentar o Outro ameaçador. “Incapaz de conquistar seu lugar ao sol, de assumir sua função social”.[28] A partir daí Ana experimenta gradativo desligamento social: “Não tenho mais nenhuma pessoa”, “Eu me afastei totalmente das pessoas”.

Quanto à desordem no registro corporal, nessa mesma época, primeiramente ela engorda, fica depressiva e depois desenvolve uma anorexia. Embora a anorexia seja uma desordem que ocorre tanto na neurose quanto na psicose e que também porta essa característica de falta de dialetização na relação com o desejo do Outro, não se trata, neste caso específico, de um sintoma interpretável, como o encontramos na histeria. Ao contrário, trata-se de um índice da externalidade corporal. Seus sintomas de corpo se desenvolvem numa tentativa de conter o afrouxamento do imaginário. Quando a imagem do corpo se desenlaça, o sujeito se vê obrigado a inventar laços artificiais para se apropriar novamente do corpo.[29] Podemos inclusive interrogar se o desenvolvimento da anorexia não fez justamente uma função de grampo, prendendo esse sujeito ao corpo, impedindo o desenlace do imaginário, estabilizando o quadro. Um Nome-do-Pai compensatório que precisamente dá esse tom ordinário à psicose de Ana.

De toda maneira, ainda teríamos como recurso para precisar o diagnóstico toda uma série de detalhes, de elementos estranhos. Como propõe Miller,[30] nesses casos muitas, vezes o diagnóstico diferencial se define numa questão de intensidade, de mais ou menos, em termos de tonalidade, de excesso. No caso de Ana, quando o tomamos sob a perspectiva da psicose, são muitos os aspectos estranhos que passam a chamar atenção. São várias as passagens que poderíamos retomar e analisar sob essa perspectiva do “[...] um pouco estranho demais para uma histeria”: sua imagem de menina, a dificuldade com “as coisas do feminino”, sua indefinição sexual, a impossibilidade de dizer não ao outro, submissão ao outro na relação amorosa. Esses são alguns dos inúmeros elementos do caso que poderiam certamente se dar no campo da neurose. Mas a junção de todos eles, presentes em cada um dos três registros, na tonalidade em que se apresentam, nos permite dizer, parafraseando Miller:[31] “[...] clinicamente, isso pende mais para a psicose”.

Do sujeito do significante ao corpo falante

Certamente a apresentação favoreceu o estabelecimento do diagnóstico, visto que, por estrutura, o dispositivo da apresentação de pacientes propicia, como sugere Léger,[32] um empuxo à definição ou, ainda nos termos de Morel,[33] um efeito de precipitação daquilo que precisa ser dito.

No entanto, nesse caso, mais do que a fala, o que chamou atenção foi a questão do corpo, cuja desordem se presentificou durante a apresentação, na transferência com o apresentador. Ana não dirige o olhar nem a voz para o público. O que pudemos testemunhar é que ela se volta inteiramente para o entrevistador. É no corpo dele que a paciente parece encontrar um suporte, uma sustentação de corpo, como fazia, e ainda tenta fazer com a irmã, como faz com o pai. Além do mais, nessa apresentação, a paciente não nos entrega a palavra. Ana falava tão baixo que só acompanhamos sua fala na medida em que o apresentador a repetia.

O caso de Ana chamou atenção também acerca dos comentários que habitualmente os pacientes fazem após a apresentação, seja para o público imediatamente a pós a entrevista, seja posteriormente para o seu terapeuta. O mais comum é uma referência à palavra: “Obrigado por terem me escutado”; “Se vocês quiserem, depois posso vir dar outra palestra”, etc. Porém, o retorno de Ana foi sobre o “se ver sendo vista”; se ver sendo vista por tantas pessoas fez Ana sentir que tinha alguma importância, o que lhe abria outras possibilidades na vida.

Habituados a pensar as apresentações a partir dos efeitos da palavra, a apresentação de Ana nos colocou uma questão: o que se pode dizer acerca do corpo numa apresentação de pacientes?

Todavia, para pensar a apresentação para além dos efeitos de significação produzidos a partir do lugar do Outro, própria da perspectiva estrutural, sustentada na hegemonia do simbólico como ordenador, é preciso passar a um outro referencial. A fim de analisar essa questão do corpo, é preciso lançar mão da clínica borromeana, que considera a homogeneidade dos três registros, o que implica a referência também ao imaginário e ao real.

Trata-se, então, de passar do sujeito do significante ao falasser.[34] O falasser não é o corpo; ele tem um corpo, precisamente, um corpo falante. Considerar o corpo falante é considerar o corpo não apenas em sua dimensão imaginária, enquanto imagem especular, mas também o corpo enquanto afetado pela linguagem e marcado pelo gozo. Isso implica considerar que o sujeito não fala sem seu corpo. Assim, para além daquilo que se fala, é preciso considerar aquilo que na experiência analítica transcorre em silêncio, mas que também está em jogo durante a apresentação, a saber, as dimensões do corpo e do gozo.

Essa questão do corpo nos é colocada, não apenas pelo caso de Ana, mas pelos efeitos recolhidos em vários sujeitos psicóticos que vão para esse encontro com seu corpo fragmentado, com recurso precário à palavra e, após a apresentação podem relatar efeitos tanto sobre o corpo quanto sobre sua relação com a palavra.

A título de exemplo, cito o caso de FC,[35] psicótico, 19 anos. A equipe demandou a apresentação em função da dificuldade de abordar o paciente. Sem conseguir fazer uso da palavra, algumas vezes FC passava ao ato hetero e/ou autoagressivo como resposta até mesmo aos estímulos mais básicos, como fome (“um buraco na barriga”), que não conseguia significar. Efeito de intenso transitivismo, não se diferenciava do que via na televisão nem dos demais pacientes. Por vezes permanecia catatônico por dois a três dias, saindo desse estado através de extrema agitação, quando jogava seu corpo violentamente contra a parede para matar o Diabo que o habitava. Convidado a participar de uma apresentação, aceitou na medida em que lhe foi assegurado que poderia interromper a entrevista quando quisesse. Durante os aproximados trinta minutos em que permaneceu no auditório, era visível sua tentativa de manter o controle: a respiração pesada, esfregava nervosamente as mãos nas pernas, dilatava as narinas dilatadas, mas se esforçava para responder ao entrevistador. Saiu um tanto agitado pedindo desculpas. Como efeito imediatamente posterior, se apaziguou, se organizou, e houve redução das passagens ao ato. Aos poucos passou a recorrer à palavra para pedir ajuda aos enfermeiros quando percebia que iria perder o controle. Cerca de três anos depois, interrogado sobre essa apresentação, respondeu: “Eu lembro. Aquele dia eu ganhei a palavra”.

O efeito ordenador do simbólico sobre o corpo já não nos parece suficiente para responder a essa questão. Uma vez que somos interrogados pelo mistério de como a língua se prende ao corpo, talvez as apresentações de pacientes possam ser tomadas como paradigmáticas para se verificar esse processo de corporização.[36]

Numa proposição acerca da consistência corporal do falasser, Mandil[37] ressalta uma passagem em O seminário, livro 23: o sinthoma, na qual Lacan faz referência ao corpo do falasser como um corpo que tende a todo instante a “sair fora”. Temos, assim, que o corpo falante é marcado pela inconsistência, o que clinicamente pode ser muito evidente nos casos de psicose. Seguindo o autor, se o falasser é alguém que precisa dar consistência a seu corpo, de que ordem seria essa consistência? Sabemos, com Lacan, que o imaginário é o corpo. Sabemos também que um modo de conferir consistência ao corpo se faz a partir de sua sustentação pela imagem.

Por outro lado, Bassols[38] esclarece que, para que a língua se prenda ao corpo, é preciso que o corpo submerja na língua. Essas proposições podem ser orientadoras para a nossa questão. Em que medida a consistência do imaginário afeta os enodamentos e os desenodamentos entre corpo e linguagem? Sabemos que a escuta do público tem efeito sobre o paciente. Nossa hipótese, a ser verificada, é a seguinte: em que medida o olhar do público pode ter efeito sobre a imagem do corpo do paciente? Ao afetar a consistência do imaginário corpo, isso poderia ter efeitos sobre o enodamento entre corpo e linguagem, permitindo ao sujeito aceder a uma outra relação com ela?

De acordo com Miller,[39] “[...] analisar o falasser é o que já fazemos, resta-nos saber dizê-lo”. Isso não é diferente no que diz respeito à apresentação de pacientes. Certamente é o falasser e seu corpo falante que estão em numa apresentação. Sobre isso, os relatos dos efeitos obtidos em inúmeras apresentações são um testemunho desse saber-fazer. Resta-nos, contudo, sistematizar esse trabalho.

Cristiana Miranda Ramos Ferreira é psicanalista e doutora em estudos psicanalíticos pela FAFICH-UFMG, com tese sobre o tema apresentação de pacientes.
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Referências

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Notas

[1] LACAN, 1972-1973.

[2] A apresentação de pacientes é uma prática de ensino que faz parte da tradição médica em geral. Partindo de uma definição bastante ampla, pode-se dizer que a apresentação de pacientes, ou apresentação de enfermos, é a forma como ficou conhecido o exame público de um doente por um especialista diante de uma audiência composta geralmente pela equipe clínica, profissionais da área e estudantes em formação.

[3] 1817 – Primeira referência oficial de um curso de enfermidades clínicas, ministrado por Esquirol, na Salpêtrière.

[4] 1934 − Ano da morte do Clérambault, considerado o último e um dos mais importantes representantes da psiquiatria clássica, reconhecido como um grande mestre das apresentações de pacientes.

[5] MILLER, 1996, p. 141.

[6] LACAN, [1957-1958] 1998, p. 540.

[7] LAURENT, 1989, p. 152,

[8] VEGH, 2001, p. 152-153.

[9] LEGUIL, [1993] 2004, p. 45.

[10] LACAN [1955-56] 1992, p. 109-110.

[11] BENETI, 1994, p. 95.

[12] LACAN, [1955-1956] 1992, p. 42.

[13] LACAN, [1955-1956] 1992.

[14] LACAN, ([1955-1956] 1992), p. 60.

[15] Apresentação de Gérard Primeau realizada em 13 de fevereiro de 1976 e publicada sob o título Uma psicose lacaniana: entrevista conduzida por Jacques Lacan. Opção Lacaniana - Revista Brasileira Internacional de Psicanálise. São Paulo: Eolia, n. 26-27, abr. 2002.

[16] SANTIAGO, 2016.

[17] SANTIAGO, 2016.

[18] BENETI, 2005, p. 2.

[19] MILLER, 2010, p. 12.

[20] MILLER, 2010.

[21] MILLER, 2010.

[22] MILLER, 2010, p. 13.

[23] MILLER, 2010.

[24] BENETI, 2016.

[25] MAIA, 2012.

[26] Apresentação realizada no âmbito do IPSM-MG. Agradeço a Lucia Grossi, Jésus Santiago, Wellerson Alkmim e demais participantes pelas contribuições na construção do caso.

[27] MILLER, 2010, p. 24.

[28] MILLER, 2010, p. 14.

[29] MILLER, 2010, p. 16.

[30] MILLER, 2010.

[31] MILLER, 2010, p. 19.

[32] LÉGER, 2008, p. 32.

[33] MOREL, 1999.

[34] Falasser, termo proposto por Lacan, em substituição ao termo inconsciente, uma vez que, como esclarece Miller, (2016, p. 26), “analisar o falasser não é mais exatamente a mesma coisa que analisar o inconsciente no sentido de Freud, nem mesmo o inconsciente estruturado como uma linguagem”.

[35] Caso discutido no âmbito da pesquisa Santigo et al. Sobre a eficácia clínica da apresentação de pacientes: investigação sobre o emprego da apresentação de pacientes no tratamento psicanalítico do sujeito psicótico. Projeto de pesquisa CNPq-UFMG-FHEMIG, Belo Horizonte, 2006. Inédito.

[36] Em psicanálise, a corporização descreve o processo pelo qual “o significante entra no corpo”.

[37] MANDIL, 2016.

[38] BASSOLS, 2016, p. 43.

[39] MILLER, 2016, p. 14.

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