• nosfw
  • os chistesfw
  • humorsobsuspeitafw
  • supermaecomicafw
  • charliechaplin2fw
  • ocomico do amorfw
  • a experienciadosentimentofw
  • notas sobre o humorfw
  • entrevistacom eduardo moreira2fw
  • podcast24fw
  • acomediadofalonoromantismofw
  • osmemesfw
  • paracadaqualumfw
  • resenha2fw
  • consideraes sobre o humor no cinemafw
  • Home

EDITORIAL 24

HUMOR

Cristiana Pittella
                                                                                                                     Psicanalista
O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.

teuta
A rua da Amargura- Grupo Galpão - Foto: de Guto Muniz

Eis o número 24 de Derivas!

O leitor encontrará o rigor precioso e sério, mas a leitura também poderá lhe causar algumas risadas.

As diferenças do humor, ao lado do chiste e da comédia, assim como suas semelhanças, encontram-se detalhadamente e com gostos variados. 

O humor tem as suas derivas.

Do fino ao burlesco. Ora verborrágico, ora silencioso. Seja autodepreciativo às sátiras, vai do ácido ao mais sutil!  Cínico ou estoico, insólito ou mesmo paradoxal, surpreendente e fugaz, por vezes afiado ou mesmo tolo... ataca e pode servir de resistência. Da farsa à paródia, do sarcasmo à ironia, ele tempera e faz vacilar as certezas.

Do ganho, ou mesmo do excesso de sentido, ao nonsense... ele coloca em jogo a própria linguagem, subvertendo a sua lógica.

É sabido do gosto de Freud (1927/1996, p. 191) pelas piadas – ele colecionava algumas e as utilizou em toda sua obra – e também o quanto ele valorizou o humor, pois este “não é resignado, mas rebelde”, não apenas escapa ao sofrimento, mas o desafia ativamente, expõe a condição mortal e sexuada do falasser, suscita o real.

É o absurdo da vida e sua potência criativa que o humor coloca em jogo!

Está relacionado ao riso, que é uma forma mais próxima daquilo que se pode chamar de saber do inconsciente, “em que o efeito do inconsciente nos é demonstrado até os confins de sua fineza [...] em que o humor, na graça maliciosa do espírito livre, simboliza uma verdade que não diz sua última palavra” (LACAN, 1953/1998, p. 271).

Lacan (1959-60/1988, p. 371) afirma que

o que nos satisfaz na comédia, nos faz rir, nos faz apreciá-la em sua dimensão humana, não excedendo o inconsciente, não é tanto o triunfo da vida quanto sua escapada, o fato de a vida escorregar, furtar-se, fugir, escapar a tudo o que lhe é posto como barreira.

O riso tem, assim, uma importante função na economia psíquica, ele “reforça o sentimento da energia vital” (MILLER, 2016, p. 99, tradução nossa), toca o corpo, o pensamento, mobiliza o afeto, subverte e modifica posições fixas e arraigadas.

A vida aparece nessa escapada, insiste, fora de lugar, fora do sentido... Ao rir, lemos o mundo de outro modo, experimentamos, enquanto falasser, uma nova satisfação: a de que “ainda estamos aqui”.

Deixem-se guiar para sentir o sabor.

Em Aquele texto...

De início, oferecemos ao leitor a carta que Freud enviou a Max Schiller. Nessa troca epistolar, Freud procura defender sua teoria. Embora reconheça o quão pouco sabemos, ele afirma que as experiências, desde os primórdios do falasser, são matéria para um artista no ofício de representar um personagem. E o humor, assim, compensaria o sofrimento experimentado. Vale a pena pousar as lentes na escrita freudiana, que porta, na delicadeza de sua pena, toques anedóticos.

Em seguida, Laura Rubião, com seu texto precioso, situará as declinações do riso em Freud, ao esclarecer e diferenciar o humor, o cômico e o chiste (Witz) não só como manifestações da cultura, mas como índices da presença do inconsciente.

Laura acaba por nos convidar, com suas elaborações, a conhecer seu livro A ética do bem-dizer nos estudos lacanianos sobre a comédia.[i] Mas, com esse texto para Derivas, ela avança com a proposta de uma nova leitura do chiste, que faz emergir da própria narrativa anedótica freudiana, a partir de sua leitura cuidadosa dos avanços no ensino de Lacan. 

O humor sob suspeita, de Sérgio Laia, é aquele texto que nos faz mergulhar nos detalhes precisos de nosso tema na obra freudiana. E ele o faz de um modo lógico encantador, ao colocar sob suspeita o humor. Verifiquem! 

Em Mathesis 

Cristina Drummond nos brinda com “A supermãe é cômica”, ao relembrar alguns clássicos retratos risíveis da relação caprichosa entre mãe e filho. Ela demonstra como a psicanálise permite ao sujeito, ao filho, ler de outra maneira, e se distanciar da dimensão trágica dos acontecimentos para experimentá-los enquanto risos!

Com “Charlie Chaplin: o Um que faz rir”, Dalila Arpin nos convida a apreciar esse ícone do humor. Como afirma Freud na carta que abre essa edição de Derivas, ela demonstra como o humor o arranca da aflição e da tristeza de sua existência. Um mais de satisfação, triunfo da alegria!

Hélène Bonnaud, com “O cômico do amor”, revela o quanto o amor, em todas as suas derivas, é cômico, ao contrário do que parece ser para muitos: trágico. Apreciem!

Em “A experiência do sentimento cômico do amor”, Ana Lydia Santiago e Jésus Santiago partem da experiência socrática do amor e demonstram como Lacan, com o mito do homelete, vai além da tragicidade da castração e da esperança de complementariedade, abrindo espaço para a via cômica do amor. Os autores nos guiam pelos desfiladeiros da experiência do sentimento cômico do amor em uma análise, orientando-nos para dois usos do falo, seja o cômico, seja para além do cômico, para um saber-fazer com o amor.

Gilson Iannini, com suas “Notas sobre o humor na música brasileira ou sobre o lugar de fala do personagem gago”, nos delicia com sua escrita musical, revelando seus gostos, sua paixão e ironia. Com sua incrível pesquisa, encontros e achados nesse universo, ele nos transmite a potência vital do humor. É preciso lê-lo e experimentarás também alegria!.    

Em Você disse contemporâneo?

Eduardo Moreira, ator, dramaturgo, diretor artístico e um dos fundadores do Grupo Galpão em 1982, nos cede suas palavras em uma entrevista sobre o humor, ao longo de seus quarenta e quatro anos de experiência nessa companhia, das mais importantes do cenário teatral brasileiro, cuja origem está ligada ao teatro de rua.

Veremos a importância do humor no trabalho entre os atores, junto ao público e seus efeitos subjetivos e sociais, ao transformarem alguns textos clássicos com narrativas e cultura popular. 

Agradecemos a Eduardo Moreira pela generosidade e ao Grupo Galpão por ceder gentilmente as imagens que compõem a edição deste número de Derivas.

Deixamos aqui nossa homenagem a Teuda Bara, que partiu recentemente. Ícone do teatro mineiro, atriz e também fundadora do Grupo Galpão, deixa um legado fundamental para as artes cênicas. Sua força, luz, irreverência, resistência e alegria ressoam na lembrança de seu imenso riso.

editorial24Cabaré Coragem, Foto @pedromalamam

No Podcast, Anamáris Pinto encontra-se com Antônio Prata, jornalista, escritor, cronista e roteirista, que nos entrega seu saber alegre. Agradecemos aos dois pela conversa animada sobre o humor, sua origem nos incômodos, sua função de escape, civilizatória, de domínio, entre outras... Escutem!!

Em Sinopses, resenhas etc. & tal... 

“A comédia do falo no romantismo brasileiro” é apresentada por Ana Helena Souza. Ela nos surpreende e nos faz rir com a comicidade despudorada, sem eufemismos, de duas poesias erótico-cômicas de Bernardo Guimarães, que balançou os paradigmas dos modelos tradicionais da literatura brasileira.  

Com “Os Memes: o humor como vírus cultural e virtual”, Marina Ladeira nos transporta para os dias atuais. Ela depura o humor dos memes, seja a sua função cômica, seja a irônica, decantando os muitos usos dessa invenção viral.

Sobre o livro de Gregório Duvivier Poema-piada: breve antologia da poesia engraçada, Isa Gontijo nos delicia com seu “Para cada um, seu cada qual?”. A partir do fazer chistoso e da plasticidade da língua que faz emergir o novo, ela cria um espaço onde o poeta, o humorista e o analista se encontrariam.

Já Patrícia Ribeiro, em “Resenha: Coisa que não edifica nem destrói”, nos entrega a obra de Ricardo Araújo Pereira que, sob diversos ângulos, define o humor. É notável como ela destaca os efeitos para aquele que produz uma tirada e para aquele que a lê, assiste ou escuta! Provocar o riso é um trabalho sério!

Rodrigo Almeida em “Considerações sobre o humor no cinema: a pornochanchada e O Auto da Compadecida”, considera de modo bastante curioso e oportuno dois modos da comédia do falo: um, em que o humor produz um riso ancorado nos signos fálicos e em sua ostentação, e outro, bem distinto, que considera a função do falo como irrealização do encontro entre os sexos. Examinem só! 

Nos dias de hoje, podemos afirmar que é preciso humor?

Queridos leitores, que nesta Derivas vocês possam encontrar uma boa e divertida leitura. 

Agradecemos a cada autor que aqui contribuiu com seu texto, a cada um da equipe, da diretoria da EBP-MG e do conselho editorial, que contribuiu com ideias e depositou seu tempo e seu trabalho na composição desta edição.

Referências

FREUD, S. O humor. In: Edição Standard das Obras Completas de Sigmund Freud. Tradução de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, Vol. XXI, 1996. p. 163-169. (Trabalho original publicado em 1927).

[i] Vocês podem encontrar na Derivas 03 o excelente comentário de Márcia Rosa, intitulado “As comédias e o fluxo de vida que jorra do cômico”, sobre esse livro de Laura Rubião, publicado em 2014 pela Editora UFMG.

-------------------------------------------------

Equipe Editorial          

Cristiana Pittella (Coordenação)
Ana Helena Souza
Bruna Albuquerque
Daniela Viola
Laura Rubião
Olívia Viana
Vinícius Lima

Revisão: Sílvia P. Barbosa
Edição de Vídeo: Bruno Senna
                                 

Conselho Editorial da EBP-MG

Cristiana Pittella
Fernanda Costa
Gilson Ianini
Helenice de Castro
Henri Kaufmanner
Lucíola Macedo
Maria José Gontijo Salum
Sérgio de Castro

Diretoria da EBP-MG

Ludmilla Féres (Diretora Geral)

Anamáris Pinto (Diretora Adjunta Secretária –Tesoureira)
Fernanda Costa (Diretora de Biblioteca)
Bernardo Micherif (Diretora de Cartéis e Intercâmbios)    

Imprimir E-mail