Editorial

 

Psicoses ordinárias

Sutis, discretas e singulares

 

 

Ao menos dois momentos emblemáticos podem ser destacados na história recente da psicanálise. O primeiro coincide seguramente com o conjunto das produções do chamado “último ensino de Lacan”: desse período rico em elaborações teóricas e remanejamentos clínicos, destacamos a pluralização dos “nomes-do-pai”. No seminário R.S.I. (1974-1975), Jacques Lacan aborda, como se sabe, os nomes-do-pai no plural, a partir do suporte topológico da cadeia borromeana. Hoje, mais do que nunca, estamos às voltas com as consequências desse aporte lacaniano. O segundo momento, igualmente significativo no contexto da psicanálise de orientação lacaniana, é a proposta de Jacques-Alain Miller, desde o final da década de 1990, de abrir o campo de investigação do que veio a se chamar “psicoses ordinárias”. Sabemos que se trata não de um novo conceito, mas de um significante do qual Miller lança mão e cuja amplitude ele quer avaliar. O questionamento da clínica binária e descontinuísta ampliou o horizonte do tratamento das psicoses. E não apenas. A singularidade dos arranjos dos sujeitos quanto aos seus modos de gozo elucida a própria prática psicanalítica nos dias atuais.

Esses dois momentos fecundos, paradigmáticos, norteiam, desde então, as dimensões clínica, epistêmica e política da psicanálise de orientação lacaniana. Nesse sentido, este número de Derivas analíticas contempla amplamente o XI Congresso da Associação Mundial de Psicanálise (AMP): As psicoses ordinárias e as outras, sob transferência (Barcelona 2018). Duas seções da revista se dedicam ao tema das psicoses: “Mathesis” e “Aquele texto...”. Na primeira seção, contamos com textos inéditos no âmbito da EBP; na segunda rubrica, trazemos textos que foram publicados e/ou apresentados em outras ocasiões.

Agradecemos aos autores que colaboraram com o dossier sobre as psicoses: Véronique Voruz, Henri Kaufmanner, Marcelo Bizzotto Pinto, Lilia Mahjoub, Márcia Rosa, Cristina Frederico, Cristiana Ramos Ferreira, Éric Laurent, Pierre-Gilles Guéguen, Romildo do Rêgo Barros, Marcus André Vieira, Antônio Teixeira e Márcia Mezêncio.

Agradecemos a cada um dos autores que, com seus artigos, resenhas, vídeos, comentários e entrevistas nos ajudam a pensar a contemporaneidade: Ana Miguel, Ruth Silviano Brandão, Reginaldo Luiz Cardoso, Fabiana Campos Baptista, Camila Alvarenga, Bianca Dias, Cecília Lana, Sérgio Laia, Aline Magalhães Pinto, Lúcia Grossi, Lívia Cristina Lopes Chaves e Cristina Vidigal.

Por fim, toda a nossa gratidão aos artistas Ana Miguel e Márcio Sampaio, que nos disponibilizaram generosamente algumas de suas obras. Tal gesto demonstra, encore et toujours, a afinidade, sempre renovada, entre a psicanálise e o campo das artes.

 

Boa leitura!