Francis Alÿs, Cuando la fe mueve montañas (Quando a fé move montanhas), 2002.

Como separar a imunização necessária da destruição da vida em comum? Somos capazes de uma imunidade comunitária?

Entre fevereiro e março de 2020, foi produzida uma compilação do pensamento contemporâneo em torno do coronavírus e das suas repercussões no mundo,  Sopa de Wuhan, que reuniu a produção filosófica de pensadores importantes de diversas partes do mundo, com visões sobre aquele momento de início da pandemia e as hipóteses sobre o futuro. Agora, com a criação de vacinas e as campanhas de imunização, acena-se com uma possibilidade de fim da pandemia, e DERIVAS ANALÍTICAS, retomando esses escritos, lança o olhar contemporâneo sobre as interpretações e previsões desses autores, para atualizar a questão do "comunitário" e do "imunitário" desencadeada pelo vírus.

Encontramos, na Sopa, por exemplo, Judith Butler sugerindo uma política de solidariedade e comprometimento com os ideais de igualdade social, ao mesmo tempo em que assumia, severa, que "o capitalismo tem seus limites". Já Byung-Chul Han não parecia ter dúvidas de que o vírus não vencerá o capitalismo, de que não se chegará à produção de uma "revolução viral", simplesmente porque nenhum vírus é capaz de fazer a revolução, já que nos isola e individualiza, cada um preocupado apenas com a sua própria sobrevivência, que não gera nenhum sentimento coletivo forte, mas uma solidariedade que consiste em guardar distâncias mútuas. Para Gabriel Markus ‒ que reconhecia que "estamos todos no mesmo barco" ‒, o próprio século XXI "é uma pandemia", resultado que é da globalização, cuja vacina necessária seria contra o "veneno mental que nos divide em culturas nacionais, raças, grupos de idades e classes sociais". Slavoj Žižek é mais contundente, na Sopa, ao afirmar que, infelizmente, "necessitamos de uma catástrofe para pensar as características básicas da nossa sociedade", uma ameaça global que dê lugar à solidariedade global, a partir da qual nossas pequenas diferenças se revelem insignificantes, todos trabalhando juntos para encontrar uma solução. A suprema ironia está no fato de que o que nos uniu e nos levou à solidariedade global se expressa, no plano da vida cotidiana, em ordens estritas para evitar contatos próximos com os demais... Franco “Bifo” Berardi se permitiu algum otimismo ao dizer que, embora as condições criadas pelo neoliberalismo na condução do enfrentamento da pandemia pudessem nos fazer sair dela mais sozinhos, agressivos e competitivos, também poderiam, ao contrário, nos fazer sair com um grande desejo de abraçar, em busca de solidariedade e contato, cujo ponto de partida estaria na igualdade”. Patricia Manrique, em seu artigo na Sopa, focou na biopolítica, completamente visível agora, obrigada a se implicar, de uma forma identitária bélica, nas decisões de quem somos, de quem faz parte do "nós" que, para se defender do vírus, teria que rechaçar os "outros", os estranhos a nós, em vez de negociar e colocar à frente uma imunidade comum, com solidariedade entre singularidades, comunidades e nações.

Para circular por essas questões, é importante lembrar, com Roberto Esposito, filósofo italiano que se apropriou de modo muito original da noção foucaultiana de biopolítica, que os termos comunidade e imunidade têm em comum o radical munus, que revela, de forma bivalente, a noção de um dever ou ofício a ser cumprido, além do sentido de dom ou dádiva recebidos. Munus seria, então, a obrigação de retribuir uma dádiva recebida, na forma de algum benefício aos demais. Assim, o que une as pessoas em comunidade, para Esposito, não é a identidade ou uma propriedade em comum, mas um dever, uma dívida, uma falha original, que nos abre aos outros e da qual não podemos nos desfazer. Isso atribui um outro sentido ao termo comunidade, agora mais associado ao compromisso donativo mútuo entre os sujeitos, bem como ao termo imunidade, que designaria justamente o que nos livra do ônus e do compromisso para com os outros, ou seja, que nos desobrigaria do compartilhamento.

A professora Junia Ferrari, da Escola de Arquitetura da UFMG, trabalha essas concepções nesta edição de DERIVAS ANALÍTICAS, na seção Você disse contemporâneo?, em seu texto “Comunidade Imunidade”, apontando para a necessidade de separarmos a imunização necessária da destruição da vida, convidando-nos a lutar para a “desativação dos aparatos de imunização negativa” por meio da “ativação de novos espaços do comum”. Trazemos também, na seção Sinopses, resenhas etc. & tal, uma resenha do livro Comum: ensaio sobre a revolução no século XXI, de Pierre Dardot e Christian Laval. Dardot é filósofo e pesquisador da universidade Paris-Ouest Nanterre-La Défense, especialista no pensamento de Marx e Hegel; Laval é professor de sociologia da universidade Paris-Ouest Nanterre-La Défense. Os autores mostram que o princípio político do comum se impõe atualmente como questão central da alternativa política para o século XXI, radicalizando a democracia ao instituir os "comuns", isto é, a disponibilidade para um agir com outro, tendo o cuidado e o compartilhamento como motores, em oposição à racionalidade neoliberal, que estimula a competição e a acumulação entre os sujeitos.

Imunidade de grupo produzida pela vacinação em massa é um conceito teórico que representa o nível de proteção coletiva que poderia deter a transmissão do vírus, baseada na premissa da criação de uma barreira de proteção. Vacinar-se seria, portanto, um ato de solidariedade, porque não se trata apenas de se proteger, mas de proteger toda a comunidade com a qual nos relacionamos. Na negação da doença e na recusa à vacina, ao percebermos um movimento identificatório que, mais que algo que vá de um sujeito em direção a outro sujeito (de um com um), vai do Outro ao Um, por redução, podemos inferir um movimento de massa que, fazendo existir o Outro como sujeito, tenta, na realidade, reduzi-lo ao Um?

Na seção Mathesis, contamos com a colaboração dos psicanalistas Sérgio Laia (EBP-Minas Gerais) e Marcelo Veras (EBP-Bahia) para responder a essa questão. Sérgio Laia, em seu texto “A transferência, ainda, frente ao Um-sozinho” – a partir do convite de DERIVAS ANALÍTICAS para esclarecer o alcance psicanalítico que o termo "comum" poderia ter no momento em que o mundo inteiro enfrenta a pandemia do coronavírus –, reescreve e modifica o texto intitulado A transferência, suas mutações e o Real, que serviu de preparação para  seu texto intitulado “A transferência, suas mutações e o Real”, escrito como uma preparação para o X Encontro Americano de Psicanálise de Orientação Lacaniana (ENAPOL), de 2021, fazendo um interessante percurso da Psicanálise de Freud ao ultimíssimo Lacan para conceber o "em comum" por meio da transferência ("autismo a dois"), do Outro que não existe e da questão de como, diante do corpo que goza de si próprio, é possível uma abertura aos outros que não seja a do stalker.

Marcelo Veras comparece, em texto duplo produzido com Patrícia Veras, pesquisadora em Saúde Pública da Fiocruz - Bahia, para discutir a questão do singular e do coletivo na Saúde, com base nos dispositivos de segregação do mundo contemporâneo acentuados pela Covid-19. Num mundo que parou de comprar, o sujeito contemporâneo determinado pelo objeto cedeu lugar ao mestre sanitário, que passou a estabelecer as novas regras de organização da vida em comum, quer elas fossem acatadas pelos governos ou não. O furo que o vírus faz no Real, inassimilável à imagem do espelho, faz pensar nos "campos de aglomeração", que difundem a pandemia, e em um saber científico que ainda está por vir...

Jacques-Alain Miller, em “Teoria de Turim: sobre o sujeito na Escola”, diz que foi pouco compreendido o que é uma “lógica coletiva” em Lacan: "o coletivo não é nada – o coletivo não é nada senão o sujeito do individual". Que quer dizer isso? Miller propõe uma nova definição do coletivo: "o coletivo é feito de uma multiplicidade de indivíduos que tomam o mesmo objeto como Ideal do eu". O coletivo se analisa como uma multiplicidade de relações individuais ao Um do Ideal do eu. O efeito sujeito que se produz aí, que perturba as funções, está articulado ao Outro: "é o que chamamos o coletivo ou o social". Desse modo, no sentido de Lacan, a transferência não é, de modo algum, um fenômeno individual, sendo perfeitamente concebível uma transferência de massa: é uma transferência multiplicada, "causada em um grande número de sujeitos pelo mesmo objeto suportado pelo mesmo sujeito suposto saber, que se manifesta por sentimentos negativos tanto como positivos, e que é constitutivo de um grupo".

Há um discurso, fundamental na entidade política, que, a partir do lugar do Ideal, opõe “Nós” a “Eles”, reforçando e intensificando a alienação subjetiva ao Ideal. Mas os psicanalistas, da posição do Ideal, podem emitir um discurso inverso, que consiste em enunciar interpretações. Interpretar o grupo é dissociá-lo, e remeter cada um dos membros da comunidade à sua solidão, à solidão de sua relação ao Ideal. Remetendo cada um à sua solidão, separado do significante mestre, como se sustentaria uma comunidade? O texto do psicanalista Marcus André Vieira (EBP-Rio de Janeiro) na seção Mathesis, “Entre o um e o coletivo”, aborda a tensão entre a política e a Psicanálise, e pergunta: é possível para o psicanalista, em sua política do sintoma, ir além da subversão “um por um” de cada análise? E o psicanalista argentino Luís Tudanca (Escuela de la Orientación Lacaniana), com o texto “Vizinhança: um comum não recíproco”, também na seção Mathesis, resgata, topologicamente, o termo "vizinhança" no seminário 21 de Lacan (Les non-dupes errent), que se opõe à lógica da demarcação e da segregação ‒ um bando e outro bando, disputas de territórios que geram guerras ‒, para falar de relações de conexidade, para localizar distintas e móveis modalidades de amarração entre as instâncias do Real, do Simbólico e do Imaginário, concebendo modalizações específicas de subjetivação para os seres falantes.

Em tempos de pandemia ‒ e, talvez, de fim de pandemia ‒, DERIVAS ANALÍTICAS quer analisar, por meio de vários trabalhos aqui apresentados, a imunidade ‒ tão necessária à conservação das nossas vidas ‒ quando é levada a extremos. Pode-se, em nome dela, tolher a oportunidade de convivência e até "o próprio sentido da nossa existência", como pergunta Esposito? A imunidade iria na contramão do conceito de comunidade ‒ como o que determina a ruptura das identidades e da noção de próprio e privado ‒, constituindo barreiras contra qualquer responsabilidade em relação aos outros? A pandemia, ao contrário de quem vaticinou seu poder de convocar a solidariedade, pode ter contribuído para uma descoletivização da vida? Como desativar os aparatos da imunização negativa em prol da ativação de novos espaços do comum ‒ entendido como o autogoverno dos seres humanos, das instituições e das regras criadas para ordenar democraticamente suas relações mútuas? Ou, ao modo de Roland Barthes, em seu curso no Collège de France, em 1976-77, nos perguntarmos "como viver junto" após o coronavírus e suas ameaças... A seção Aquele texto... resgata “Como viver junto? Fronteiras e territórios”, dos psicanalistas mineiros da EBP Célio Garcia, Fernanda Otoni Brisset e Andréa Guerra, para tratar o espaço banal onde cada sujeito encontra seu enlaçamento com o Outro, a fronteira, em sua conexão do singular ao universal, e pensar a produção, no caso a caso, do espaço comum. Já Eliane Robert de Moraes, professora de Literatura Brasileira na USP e pesquisadora das figuras do excesso na prosa de ficção brasileira dos séculos XX e XXI, com seu “Sobreviver junto”, na seção Você disse contemporâneo?, acrescenta à tópica do viver junto uma localização. Ao "como" de Roland Barthes ‒ “Como viver junto” ‒, vem somar-se imediatamente um "onde", referido à complexa arquitetura da convivência humana, explorando, no imaginário náutico, a questão da sobrevivência, que parece se sobrepor à mera convivência.

A questão colocada por Barthes interessou à equipe editorial de DERIVAS ANALÍTICAS no ponto intersticial em que a convivialidade se confunde e coincide com o viver sozinho ‒ algo referido a uma particularidade radicalmente só ‒, em formas de vida comunitárias nas quais cada membro segue seu ritmo pessoal, mas depende, ainda que em escala mínima, de uma organização partilhada. E o Outro? Como fica? Essas reflexões convocam algumas aporias psicanalíticas, que vão do dualismo inicial freudiano entre as pulsões sexuais e de autoconservação até o embaraço lacaniano entre o Um e o Outro. Se a tendência às identidades de grupo e à desagregação social já vinham se acentuando de forma acelerada com o uso da internet, a globalização e o esgarçamento de referências simbólicas tradicionais, é provável que a pandemia do coronavírus venha favorecer esse tipo de “imunidade”...  Em torno disso, trazemos, em Você disse contemporâneo?, o ensaio “Cozinha do comum”, escrito pela equipe editorial de DERIVAS ANALÍTICAS como efeito da provocação do tema desta edição, no qual, por meio da ideia de "banquete", trabalhamos a construção possível de um novo laço social a partir de uma adição de solidões, de gozos e sintomas singulares. E na seção Sinopses, resenhas etc. & tal, convidamos Jacques Fux, escritor, matemático, mestre em Computação, doutor em Literatura Comparada e autor de livros premiados (Literatura e Matemática, Antiterapias, Brochadas, Meshugá, Um labirinto labiríntico), para se embrenhar conosco num puzzle, o livro A vida modo de usar, de Georges Perec, com suas regras, jogos e contraintes matemáticas, que funcionam como um objeto de desejo velado que tenta governar o mundo contingente, em histórias inter-relacionadas de habitantes de um mesmo prédio no 17° arrondissement de Paris.

Como na edição passada, tentaremos nesta 16ª edição ter a presença da Arte na DERIVAS ANALÍTICAS não como ilustração, mas como mais um ensaio imagético ‒ que contará, como suplemento, na seção Sinopses, resenhas etc. & tal, com o texto “Tornar-se outro para ser si mesmo: Francis Alÿs dentro da fronteira”, de Laymert Garcia dos Santos, professor titular do Departamento de Sociologia da Universidade Estadual de Campinas, com atuação em áreas como tecnologia, biotecnologia, arte contemporânea e política ‒, em diálogo com o público leitor. A arte entra na rede de textos como ator, no "entre" textos, como um meio potente de criar reflexões por meio de imagens, para além da palavra. Por isso, convidamos Francis Alÿs, artista com reconhecimento internacional (ou seja, que ultrapassa as fronteiras do seu meio cultural de origem e dialoga com o mundo), para convocar a vislumbrar, por meio do reconhecimento da estratégia usada pelo artista, uma resposta ao Real inédita, que faz laço com o Sistema da Arte, em um discurso já reconhecido: discurso que significa, na Cultura, a inscrição do artista no humano, em ressonância com o mundo, por meio do traçado de uma linha, para encontrar uma fissura no espaço irrespirável do já dado e penetrar nela, abrindo nessa fronteira a reconfiguração do espaço-tempo numa perspectiva inédita, e criando, pela arte-política, condições que permitam à vida fluir e romper, por minimamente que seja, os obstáculos e barreiras de toda sorte que a represam no marasmo da repetição e da submissão. A arte de Alÿs, segundo Laymert Garcia dos Santos, é "a manifestação de um encontro liberador entre eu e o outro, no qual eu torna-se outro para poder, enfim, ser ele mesmo".

Uma edição de uma revista de Psicanálise e Cultura como esta da DERIVAS ANALÍTICAS, atenta aos encontros e acontecimentos propostos pela política decolonial, não poderia deixar de fazer uma oferenda, um ebó. Na seção Sinopses, resenhas etc. & tal, a partir da mitopoética de Exu nas religiões de matrizes africanas, apresentamos a compositora, percussionista e cantora pernambucana Alessandra Leão, que, como se estivesse num terreiro ou numa encruzilhada, propicia ao espectador uma experiência musical e sensorial de abertura para caminhos de possibilidades. Exu, mensageiro dos Orixás, é quem conduz nossas jornadas, e a "encruzilhada", onde está Exu, pode ser lida aqui, para além de crenças religiosas, como uma poética e um método de inconformidade com a racionalidade cartesiana e eurocêntrica como único projeto de mundo possível. A ética introduzida pela encruzilhada é a do reconhecimento da condição de existência individualizada e do outro como possibilidade, da vida e do mundo como projeto inacabado, e da possibilidade de inscrição no mundo somente quando se está em relação com o outro:

Quando Exu chega
Ele abre
Eu vou lá
Abre estradas
E olho
Para além de mim